Nessa chuva forte que cai em Recife e me impediu de sair de
casa esta manhã, me lembrei deste texto, já quase esquecido. Eu o escrevi em
janeiro de 2006, numa espécie de fluxo de consciência. Era uma época um pouco
conturbada para mim, que estava em processo de separação de meu 1º casamento e
dentro de um mês deixaria a casa onde até então vivia com meus filhos. Embora
tenha um cunho pessoal, não deixa de ser um texto ‘dylanesco’, de modo que
resolvi publicá-lo aqui no Blog e compartilhá-lo com vocês...
Dia desses eu caminhava pelas ruas do Recife Antigo, por
volta do meio-dia. Era uma sexta-feira à toa, em janeiro de 2006. Eu acabara de
sair do trabalho, numa pausa para o almoço e aproveitei para dar uma
passeadinha. Teria sido uma sexta-feira qualquer, exceto pelo calor do verão
nordestino, se eu não tivesse resolvido entrar na Livraria Cultura e ido direto
à seção de DVDs. Lembrei-me de um DVD que há muito queria comprar: “Concert for
Bangladesh”, do ex-Beatle George Harrison e amigos. Achei o disco, pedi ao
vendedor para colocá-lo para rodar e então, controle-remoto nas mãos, fiquei
passando de música em música, todas maravilhosas. Finalmente chegou o capítulo
15: “Blowin´ in the Wind”, de Bob Dylan. Resolvi deixá-la tocar inteirinha. De
repente, comecei a sentir uma tristeza profunda ao ouvir aqueles versos:
“Quantas estradas precisará um homem andar, antes que possam chamá-lo de
homem?”; “Sim, quantos ouvidos necessita um homem, para que possa escutar as
pessoas chorarem?”; “Sim e quantas mortes custará, até que ele saiba que gente
demais já morreu?”. Decidi comprar o DVD e colocá-lo no fundo de uma sacola,
bem escondido como um segredo. Fui para casa e, depois de almoçar e tomar um
banho, voltei ao trabalho. Deixei o disquinho no quarto, enterrado no fundo de
uma gaveta, como uma emoção que teima em aguardar o momento certo para aflorar.
Ao final do dia de trabalho, retornei para casa. Liguei o DVD Player e comecei
a assistir ao disco. O show é um concerto de 1971, realizado no Madison Square
Garden, em Nova York e é considerado o primeiro destes grandes eventos
beneficentes, hoje tão comuns. Começa com uma belíssima apresentação de músicos
indianos, liderados pelo genial Ravi Shankar. Após muitas louvações a Deus e
pedidos de ajuda à comunidade internacional para as pessoas famintas de
Bangladesh, além da apresentação de diversos artistas convidados, inclusive o
anfitrião, sobe ao palco Bob Dylan. Sem maiores apresentações, chega cantando
“A Hard Rain´s A-Gonna Fall”. Comecei a entrar em transe... Minutos depois,
quando ele emendou com “Blowin´ in the Wind”, as lágrimas avolumaram-se de tal
maneira em meus olhos, que não mais consegui segurá-las.
Minha filha acabara de entrar no quarto. Um recinto que lá
em casa, por motivos óbvios, costumamos chamar de “Home-Theater do Papai”. Um
pouco tímida, sentou-se ao meu lado, perguntou se eu estava triste...
Assistimos ao restante do show, tomei outro banho, jantamos e resolvi me deitar
no escuro. Estava de alguma forma alterado pelo que acabara de assistir.
Coloquei pra tocar um CD de Bob Dylan e fiquei ali mesmo na escuridão, só
escutando... Comecei então a pensar na minha vida até aquele instante...
Oh, where have you been, my blue-eyed son?
Oh, where have you been, my darling young one?
I've stumbled on the side of twelve misty mountains,
I've walked and I've crawled on six crooked highways,
I've stepped in the middle of seven sad forests,
I've been out in front of a dozen dead oceans,
I've been ten thousand miles in the mouth of a graveyard,
And it's a hard, and it's a hard, it's a hard, and it's a
hard,
And it's a hard rain's a-gonna fall.
Na infância que nunca mais voltará ou talvez em outra
existência; nos brinquedos que há muito tempo deixei; nas brincadeiras que
realizei e naquelas que deixei de realizar; nas escolas que estudei; nas
primeiras músicas que escutei; os primeiros amigos; os primeiros professores...
Lembrei até de queridos familiares que já se encontram em outro plano... De
repente me vi recordando a adolescência, a juventude, momentos talvez felizes
de minha vida. Enquanto isto no aparelho de CD...
Oh, what did you see, my blue-eyed son?
Oh, what did you see, my darling young one?
I saw a newborn baby with wild wolves all around it
I saw a highway of diamonds with nobody on it,
I saw a black branch with blood that kept drippin',
I saw a room full of men with their hammers a-bleedin',
I saw a white ladder all covered with water,
I saw ten thousand talkers whose tongues were all broken,
I saw guns and sharp swords in the hands of young children,
And it's a hard, and it's a hard, it's a hard, it's a hard,
And it's a hard rain's a-gonna fall.
As primeiras utopias; as primeiras namoradas; as primeiras
transas que tive e até as que não tive; as primeiras festinhas; as primeiras
decepções e frustrações. Lembrei das músicas e filmes que marcaram minha
adolescência; dos sonhos de montar uma banda de rock; aliás, música era algo
para o qual definitivamente eu não tinha o menor talento. Enquanto isto no CD
Player...
And what did you hear, my blue-eyed son?
And what did you hear, my darling young one?
I heard the sound of a thunder, it roared out a warnin',
Heard the roar of a wave that could drown the whole world,
Heard one hundred drummers whose hands were a-blazin',
Heard ten thousand whisperin' and nobody listenin',
Heard one person starve, I heard many people laughin',
Heard the song of a poet who died in the gutter,
Heard the sound of a clown who cried in the alley,
And it's a hard, and it's a hard, it's a hard, it's a hard,
And it's a hard rain's a-gonna fall.
Pensei na minha dura transição para a idade adulta, mais
dura ainda porque apesar dos 37 anos (na época do texto), sinto-me velho, como
se me restasse apenas um sopro de vida. Talvez eu tenha este sentimento porque
não encaro muito bem o fato de que meu tempo já esteja passando. The Times They
Are A-Changin´... Ao mesmo tempo, sinto-me criança, o vento no rosto, a
inocência, os desejos mais incontidos... Talvez seja isto mesmo, um misto de
velho e criança, o suficiente para não ter pressa e ao mesmo tempo querer tanto
e tudo.
Lembrei de meus amigos. Daqueles que continuam ao meu lado e
daqueles que já partiram para uma outra existência. Dos que a vida foi tratando
de me ofertar, ao longo da jornada. Daqueles que o tempo separou e daqueles que
o espaço tratou de separar. Lembrei também daqueles cuja amizade é tão forte,
que nem mesmo o tempo e a distância são capazes de apagar... Enquanto isto no
CD player...
Oh, who did you meet, my blue-eyed son?
Who did you meet, my darling young one?
I met a young child beside a dead pony,
I met a white man who walked a black dog,
I met a young woman whose body was burning,
I met a young girl, she gave me a rainbow,
I met one man who was wounded in love,
I met another man who was wounded with hatred,
And it's a hard, it's a hard, it's a hard, it's a hard,
It's a hard rain's a-gonna fall.
Lembrei do dia de meu casamento, das promessas, das
alianças, dos sonhos de vida, dos filhos que viriam e vieram. Lembrei da minha
família... da mulher que amei um dia, do filho que perdemos, dos que a vida nos
presenteou. Como é difícil essa tal adolescência, quão intolerante talvez eu
seja, quão duro a vida haverá me tornado...
Me veio à mente a figura de meu pai. Sua luta, sua bravura e
aquelas palavras que ele costumava dizer, pois quando criança aprendera com meu
avô: “Para uma vida digna e honrada é preciso três coisas: consciência;
consciência e consciência”.
No final da tal retrospectiva, pensei em todas as escolhas
feitas até aqui, nos sucessos e frustrações, frustrações estas que me trouxeram
arrependimentos, mas nem mesmo destes estou bem certo... As utopias perdidas,
os sonhos despedaçados, a crença num mundo melhor... Tudo que deixei para trás
e tudo que pretendo retomar... Os lugares que até aqui, nesta longa ou curta
existência pude conhecer, as pessoas que amei e também as que não pude amar.
Pensei muito, mas muito mesmo, no futuro. Ah! O futuro: o
que ele espera de nós? Enquanto isto o CD player finalmente tocava...
Oh, what'll you do now, my blue-eyed son?
Oh, what'll you do now, my darling young one?
I'm a-goin' back out 'fore the rain starts a-fallin',
I'll walk to the depths of the deepest black forest,
Where the people are many and their hands are all empty,
Where the pellets of poison are flooding their waters,
Where the home in the valley meets the damp dirty prison,
Where the executioner's face is always well hidden,
Where hunger is ugly, where souls are forgotten,
Where black is the color, where none is the number,
And I'll tell it and think it and speak it and breathe it,
And reflect it from the mountain so all souls can see it,
Then I'll stand on the ocean until I start sinkin',
But I'll know my song well before I start singin',
And it's a hard, it's a hard, it's a hard, it's a hard,
It's a hard rain's a-gonna fall.
Você deve estar se perguntando: o que Bob Dylan tem a ver
com tudo isso? Fácil responder. Para mim, o bardo, com suas letras, suas
músicas, sua voz anasalada e seu estilo inconfundível, remete exatamente a esta
possibilidade de uma auto-análise. Não importa se ao som de uma canção melancólica,
mas que, por incrível que pareça, me faz muito bem! Gosto do Bob Dylan, porque
as palavras lhe vêm direto do coração à boca, sem serem processadas pelo
cérebro, justamente porque tem coisas no coração que a cabeça se encarrega de
sepultar, você me entende?
Desde garoto tive muitos ídolos, curti muitas bandas, muitos
artistas, uma infinidade de músicas, poemas, filmes e tudo mais. Agora, que a
vida mais parece um turbilhão, precisava de uma âncora e a encontrei.
Penso que eu seja uma pessoa melhor, desde que conheci Bob
Dylan com mais profundidade. Li suas crônicas, sua biografia, seus encartes e
notas. Às vezes o sinto como um amigo próximo que, quando tenho vontade de
ouvir palavras sábias, simplesmente ligo o CD Player e elas começam a me ressoar
pelos ouvidos...
Recife, 09 de janeiro de 2006.