terça-feira, 18 de março de 2008

No Direction Home


“Ele é um neurótico!”, gritava uma jovem, na saída do Albert Hall, após a apresentação de Bob Dylan. “Nós viemos aqui para ver um artista folk, não uma banda de rock”, vociferava um rapaz, no meio de um grupo, na saída do teatro. “Eu quase enlouqueci com essa banda tocando tão alto”, revelava mais outro fã inconsolável. Os depoimentos eram um retrato sem retoque do que parecia ser o de um “judas” que havia traído as suas raízes e abandonado a música de protesto para virar uma espécie de último beatnik . O choque causado pela mudança de estilo do compositor de “Blowin' In The Wind” é o cerne de No Directon Home , documentário dirigido por Martin Scorcese sobre o período mais turbulento da carreira de Dylan — que coincidiu com momentos importantes da história dos Estados Unidos: Crise dos Mísseis, Martin Luther King, Kennedy e o Vietnã.

O filme, que começa e termina com as imagens marcantes da malfadada turnê européia do mais popular folk singer de sua geração, mostrando a perlplexidade tanto da platéia, que não entendia o porque daquele set com uma banda de rock no fim da apresentação acústica, entremeada por apupos e palavras de ordem quando a do autor de “Like a Rolling Stone”, ao ter que responder, a repórteres ligeiramente despreparados ou que não conhecessem qualquer disco seu, perguntas tão absurdas quanto as suas respostas:

Repórter: quantas pessoas do seu meio musical que também fazem canções de protesto?
Dylan: Você quer saber quantos?
Repórter: Sim, quantos?
Dylan: Bom, acho que uns centro e trinta e seis (risos abafados).
Repórter: Você acha que são cerca de cento e trinta e seis?
Dylan: Certamente uns centro e trinta e seis. Ou cento e quarenta e dois! Rá, rá.

Xodó - Corte para Dulluth, quando o documentário se volta para o começo da carreira de Bob Dylan. Ele tateava por um estilo musical e, vendo que o rock vivia uma situação adversa, encontrou terreno fértil no folk , quando descobre diversos artistas de folk, blues e gospel, como Ma Rainey, Leadbelly, Odetta, Billie Holliday, Hank Williams, John Jacob e Woody Guthrie. Resolve absorver tudo aquilo e partir para Nova Iorque onde, após uma marcante incursão pelo universo boêmio de Greenwich Village — muito bem retratado por Scorcese –, ele consegue apresentar-se em pequenos cafés, até chegar ao disco, em 1961. Após o discreto début no primeiro álbum, gravando principalmente standards de folk e blues, ele vira ícone da noite para o dia com “Blowin'In The wind” e se transforma em uma espécie de xodó das esquerdas.

Para eles, Bob era mais do que um cantor de protesto, com letras simples e simplórias, mas tinha um magnetismo pessoal, e uma capacidade impressionante de criar a trilha sonora do que era a luta dos movimentos sociais norte-americanos pelos Direitos Civis. Em menos de um ano, o cantor era figura de proa de um movimento que tinha pretensões mais políticas do que meramente musicais. Mais do que isso, Dylan demonstrava, como é evidente no documentário, uma antena da raça. “Ela absorvia tudo”, diz Tony Glover, num trecho do documentário. “Ele pagava cada elemento, cada maneirismo, cada acento que achasse importante e adicionava tudo à sua música”, revela.

Scorcese inclui sutilezas ao contextualizar Dylan à sua época. Tempos politicamente confusos, onde havia segregação racial, o trauma de um país inteiro com o assassinato de Kennedy (que é mostrado em tela tendo ao fundo “A Hard Rain's A Gonna Fall”), o medo da ameaça nuclear e a morte de civis e de militares ianques no Vietnã. Dylan foi identificado, rotulado, embalado e vendido como produto de protesto e bandeira incendiária de movimentos identificados com a esquerda, ao mesmo tempo em que era guindado aos píncaros azulados do sucesso comercial, e transformado em ídolo do Newport Folk Festival.

Escândalo - O momento mais tenso de No Direction Home desvenda o processo de mudança da postura do compositor como artista, a influência beatnik (inclusive de Allan Ginsberg, que fornece depoimentos importantes). Ao mesmo tempo em que se dedica cada vez mais à prosa, escrevendo caudalosamente numa máquina de escrever portátil, ele passa a absorver a literatura de Blake, Ginsberg e Kerouac na mesma medida em que entronizara Gutherie no começo de sua breve carreira. Agora era outro: cabelos longos, rosto cavo, óculos escuros, letras gigantescas e dantescas. O homem que era a voz de uma geração, o cantor de protesto, o xodó das esquerdas resolve reproduzir na sagrada Bayreuth de Newport o som que descobria em estúdio, ao plugar o seu canto e moldurá-lo à guitarras rascantes pianos honk tonk.

Assim, Dylan eletrifica o seu som e choca a comunidade folkie . Escândalo geral. A apresentação não dura quinze minutos. No fim do show, Bob descobre que Pete Seeger, cantor e compositor que tanto admirava, queria cortar a eletricidade com um machado. Mais tarde naquela noite, durante a festa, Maria Maudaur tenta animar Dylan: “você quer dançar?”. “adoraria dançar com você”, diz o cantor. “Mas as minhas mãos estão em fogo!”, ele devolve, entre inconsolável e enigmático.

Como a mão que afaga é a mesma que apedreja, de repente, ao eletrificar o seu som, o messias das esquerdas vira o vilão da história. Ao mesmo tempo em que precisa afirmar as suas posições e ser cobrado por abandonar o protesto (que, segundo Joan Baez explica, nunca foi a tônica na personalidade do Dylan como pessoa) , ele tenta reafirmar a sua nova música, calcada no rock, com Mike Bloomfield como seu lead guitar e Robbie Robertson e a embrionária The Band no palco. Enquanto o produtor de folk Harold Leventhal conta o seu desencanto com os acontecimentos de Newport, Baez revela que sentia que seu parceiro musical vislumbrava um público maior e menos restrito do que aquele. “sempre que eu ia à passatas, as pessoas me perguntavam: o Bob virá? Eu dizia: não, seu tolo, ele não virá, ele nunca esteve aqui, ele nunca viria”.

Expedicionário musical - O choque com a imprensa é inevitável. “Você sabe por que você é famoso?”, pergunta um jornalista. “Você acredita no que você canta?”. Dado momento, um lasca: “Você vai àquela manifestação, à noite?”. Ele pega o microfone diz: “eu estarei ocupado esta noite”. Scorcese faz uma antologia de coletivas onde Dylan é fuzilado com pistolas de esguicho, disparadas por repórteres tanto autorais como despreocupadas. “Você acha que é o último beatnik?”. “O que quer dizer aquela motocicleta em sua camiseta?”. Um graceja, entre flashes: “Os seus primeiros discos eram bem melhores!”. “De onde você é?”, pergunta o compositor. “Sou francês”, revela o jornalista. “É por isso que você prefere os primeiros”, ri o ilustre entrevistado.

O Dylan de agora dialoga consigo e relembra os eventos, dizendo: “eu era um expedicionário musical”. Essa era a chave para entendê-lo. Joan Baez, também em retrospectiva, entende que, naqueles tempos, qualquer pessoa que fosse uma figura pública precisava estar em um lado: “ou você estava do lado do governo, ou estava do lado de [Martin Luther] King. Ou estava do lado do Vietnã, ou estava contra”. Bob foi colocado de um lado que nunca esteve, e o acusado de mudar de lado. Esse é o ponto crucial da tese de Scorcese: a sua leitura é a do artista incompreendido, cuja arte deveria apontar para alguma direção, principalmente alguma direção política. A visão do diretor aponta para a direção do outsider , do artista rotulado, vaiado, rejeitado, cuja apoteose é a vaia. “Você vai voltar, Bob?”, pergunta uma fã. “quero saber quem me vaiou”, diz Dylan.. “Me dê um autógrafo”, implora um garoto. “Você não precisa do meu autógrafo”, graceja o cantor. “Se precisasse, eu lhe daria”. “O que é que ele tem hoje??”, ri o garoto, enquanto carro vai embora.

“Onde está Woody, Bob??”, desafia alguém na platéia, em Endiburgo, numa das cenas recorrentes de No Direction Home : a tumultuada turnê britânica, que abre e fecha o filme. “Judas!”, grita um. “E as músicas de protesto, Bob?”. “Estas são música de protesto, pessoal, então, por favor”, defende-se Dylan, ao microfone.

Ginsberg flagra encontro entre Dylan e os Beatles num hotel em Londres, em 1965, quando o poeta era deportado da Thecoslováquia, e parou na capital inglesa. Ele revela que não conhecia os Beatles pessoalmente, mas como tinha contato com o Dylan, ficou ao lado dele. De repente, resolveram quebrar o gelo. Allan pergunta a John Lennon: "você já leu William Blake?". John respondeu: "nunca". Ao que Cyntia, sua esposa, responde: "John, não seja mentiroso!". E todos riram. Allan não escondeu que, ao ver aquele pessoal todo que estava no auge do sucesso em todos os sentidos, no fundo, demostrava estar meio que perdido, sem saber o que fazer com tudo aquilo.

Bob não sabia o que fazer com o ônus de pagar a opção por traçar o seu caminho como compositor e tentar conduzir o seu talento a alçar outros vôos. Ele não queria ser lembrado como o “cantor de protesto”, não se importa com aqueles que o malharam. Maria Maudaur mata a charada: “Ele queria que o público viesse a ele, não o inverso”.

Por Marcelo Xavier
highway61@bol.com.br
Originalmente publicado em “Rabisco – Revista de Cultura Pop”
http://www.rabisco.com.br/72/direction_home.htm


Aproveito o belo texto do Marcelo, aí em cima, pra recomendar o DVD "No Direction Home", do Martin Scorsese, por apenas R$ 12,99 em promoção das Lojas Americanas.

Um comentário:

Jonas Souza disse...

belo blog, Sergião
postei no link dos meus favoritos..

se poder dá uma visitada lá

http://visoesdeummundocambaleante.blogspot.com/

abraço e isso aí !