Mostrando postagens com marcador The Band. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador The Band. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 15 de julho de 2013

'Another Self Portrait' saindo do forno...

Como já era esperado, o site oficial de Bob Dylan anunciou que o próximo volume (Vol.10) das 'Bootleg Series' é um conjunto de "alternate takes"; "demos" e versões "ao vivo" do período de gravações dos álbuns 'Self Portrait' e 'New Morning' (1969-1971).

O disco terá o subtítulo 'Another Self Portrait' e, assim como o álbum original, a capa também é assinada pelo próprio bardo.

As 'liner notes' serão do crítico Greil Marcus, aquele mesmo da resenha "Que Merda é Essa?" do lançamento original, além de raras fotografias e etc.

A versão 'standard' vem com CD duplo + libreto e a versão 'deluxe', além dos 2 CDs e libreto, trará +1 livro com fotos de John Cohen e Al Clayton e o melhor de tudo: 2 CDs com a apresentação histórica de Bob Dylan & The Band, "ao vivo" no 'Isle Of Wight Festival', 1969!


terça-feira, 2 de julho de 2013

Hora de celebrar: 45 anos de ‘Music From Big Pink’, da The Band!

Depois de nos brindar com um texto pra lá de bacana, sobre as 'Basement Tapes', de Bob Dylan & The Band, o amigo dylanesco Ismael Calvi Silveira nos presenteia com a celebração dos 45 anos de um dos melhores álbuns da história (o melhor?): 'Music From Big Pink', disco de estréia da The Band. Confiram:

Hora de celebrar: 45 anos de ‘Music From Big Pink’, da The Band!

Se na semana anterior estávamos celebrando os 38 anos do lançamento de Basement Tapes, a versão oficial das sessões de gravação entre Bob Dylan e The Band, hoje temos mais uma razão para comemorar. Neste dia, no aparentemente longínquo ano de 1968, chegava às lojas 'Music From Big Pink', emblemático disco de estreia da The Band que ajudou a reformular a música americana posterior a seu surgimento. O disco marca o início de um legado que ultrapassa a própria duração da banda, e isso pode ser visto através da idolatria de alguns músicos: Eric Clapton, Roger Waters e George Harrison, por exemplo, são fãs declarados tanto da Banda quanto do 'Music From Big Pink'. Isso é um belo indicador do que nos espera, não?

Há 46 anos atrás, reunidos com Bob Dylan em uma casa rosada próxima a Woodstock, em West Saugerties, Nova Iorque, tudo começava. Os então The Hawks já tinham trabalhado com a lenda Ronnie Hawkins e com o próprio bardo, embora apenas como banda de apoio; ou seja, a rapazeada já era escolada e tinha uma afinação bacana. Mas foi naqueles meses em que Garth Hudson, Levon Helm, Richard Manuel, Rick Danko e Robbie Roberson estiveram sob a orientação íntima de Bob Dylan, que a The Hawks se credenciou a abandonar aquele nome que representava a sua metafórica infância musical. O ritual de passagem estava completo e os cinco estavam aprovados: era hora de escolher o verdadeiro nome pelo qual eles seriam lembrados, o nome que representaria os homens nos quais eles haviam se tornado ao longo de meses de aulas práticas sobre folk, country e blues com o mestre Dylan.
A Banda pode soar um tanto presunçoso, mas é, no fundo, bastante certeiro e veio de uma forma natural. Como o Richard Manuel explicou no filme The Last Waltz, primeiro eles haviam tentado como “The Honkies” e “The Crackers”, mas a gravadora não aprovara os nomes (e, cá entre nós, fez um grande favor aos caras). Durante uma turnê com Bob, eles eram chamados de “the band” e, como todo apelido indesejado, acabou pegando. Assim, aclamados pela opinião pública desde a escolha do nome, era hora de gravar seu próprio material, digno do nome.

Em 1968, nosso grupo partiu de um material já pronto: três faixas que constam no álbum (“Tears of Rage”, “This Wheel’s On Fire” e “I Shall Be Released”) já haviam sido compostas nas sessões de 1967 com Dylan. Além dessas três faixas, há mais um cover, um clássico do country: “Long Black Veil”. De resto, foram compostas outras 7 canções para integrar a obra. “To Kingdom Come”; “In A Station”; “Caledonia Mission”; “We Can Talk”; “Chest Fever” e “Lonesome Suzie” são algumas acompanhantes de luxo do carro-chefe da banda: “The Weight” (que, como falamos no texto sobre o Basement Tapes, acabou virando sinônimo de algo genuinamente americano).
Unindo o legado dos tempos de Ronnie Hawkins com o treinamento dylanesco, Garth, Levon, Richard, Rick e Robbie criaram algo novo, único. Dali surge o tal do "roots rock", esse gênero significativo que, na verdade, é uma grande mistura de tudo. Há no som “inaugurado” em 'Music From Big Pink' uma união harmoniosa e orgânica de blues, R&B, soul, country e folk. De Curtis Mayfield ao próprio Dylan, muita gente serviu de base para esse espaço atemporal da música americana que é Music From Big Pink. Essa nova perspectiva, por exemplo, foi o que levou Eric Clapton a abandonar o Cream e procurar novas sonoridades junto do Blind Faith, e depois apoiando o duo Delaney and Bonnie ou mesmo formando o projeto Derek and The Dominos.

Robbie entrou com a maioria das letras (das originais do grupo, apenas “We Can Talk” e “Lonesome Suzie” são de autoria Richard Manuel) e com um trabalho de guitarra que, num primeiro momento, não parece se destacar tanto. Rick Danko (baixo), Richard Manuel (piano) e Levon Helm (bateria) também não fazem questão de se exibirem através de seus instrumentos. Na verdade, apesar de em termos ‘instrumentais’, ser Garth Hudson o verdadeiro gênio – e o som fulminante de seu órgão ser uma boa chave de entendimento do que é a The Band – é o conjunto da obra que impressiona. O absoluto clima de profunda amizade tira o fôlego, e a unidade do som parece operar com o funcionamento de uma família que se ama. Robbie, certa vez, disse que as músicas acabaram tão ‘redondas’ pelo fato de nenhum deles ser um grande músico – modéstia à parte, a verdade é que eles desenvolveram uma sinergia que representa muito bem como a música deveria ser, ao menos na minha concepção de música.

Por outro lado, se quase não há virtuosismo instrumental por parte dos membros da The Band, é difícil não ficar absolutamente embasbacado com os vocais. O jogo de vozes estabelecido entre Danko, Manuel e Helm é uma das coisas mais lindas que já ouvi por aí. Individualmente, cada um deles representa um tipo de vocal diferente – algo propício para a variedade de estilos e sonoridades que a banda abarcava -, mas juntos eles se tornam deslumbrantes. A voz de Richard é uma faca afiada e quente, usando um falsete lindo, ela desliza através dos corações como se fossem feitos de manteiga – acho que no rock há poucas vozes tão lindas. Já Rick é, normalmente, o mais descontraído dos três – ele costuma acrescentar um tom “brincalhão” às músicas, embora também seja capaz de emocionar. E Levon, talvez a figura paterna dessa família, traz autenticidade aos canadenses: como bom sulista, seu sotaque acrescenta um sabor especial ao seu vocal carregado. Ele é, acreditem-me, um artigo genuíno. Essa simbiose entre as vozes  é uma forte marca da banda. 
Apesar de todas essas qualidades e da admiração de alguns músicos importantes, “Music From Big Pink” não foi um sucesso instantâneo, todavia. As vendas começaram devagar, mas uma resenha muito elogiosa de Al Kooper na revista 'Rolling Stone' ajudou a chamar mais atenção para o surgimento da The Band. Em 1968, “Music From Big Pink” ficou na 30ª posição na lista de álbuns pop da 'Billboard', enquanto “The Weight” atingiu apenas a 63ª posição na tabela de singles 'Billboard Hot 100'. Por outro lado, a recepção foi um pouco mais calorosa no Canadá (35º lugar) e no Reino Unido (21º). O que, pelo que me parece, foi fundamental no alavancamento da The Band e do 'Music From Big Pink' ao sucesso foi a apresentação da banda no festival Woodstock em 1969 e a inclusão de “The Weight” no magistral filme "Easy Rider" (Sem Destino), também de 1969. Daí pra frente, ficou difícil segurar aquele pessoal. Em 2003, a 'Rolling Stone' elegeu “Music From Big Pink” como 34º melhor disco de todos os tempos, em uma lista com 500 álbuns.

Em 2008, no aniversário de 40 anos de 'Music From Big Pink', o disco recebeu uma edição remasterizada de luxo, com 9 faixas bônus. São elas: “Yazoo Street Scandal”; um take alternativo de “Tears of Rage”, “Katie’s Been Gone”; o cover de “If I Lose” (composta por Charlie Poole); “Long Distance Operator”; um take alternativo de “Lonesome Suzie”; “Orange Juice Blues (Blues For Breakfast)” (composta por Richard Manuel); cover do standard de blues composto por Big Bill Broonzy, “Key To The Highway”; e “Ferdinand the Imposer”.
O fato é que mesmo depois de passados 45 anos, “Music From Big Pink” permanece uma obra-prima da música norte-americana. Além de ter influenciado, como já falamos antes, Clapton, Waters e Harrison, o disco também ajudou a formar o gênero de roots rock. Aquele jeito, na época novo, de fazer o rock parecer velho, como se viesse de um tempo imemorial – alguma época de ouro perdida -, ainda é o exemplo mais bem acabado, na minha opinião, do benefício que essa viagem pelas raízes musicais de um país pode trazer ao rock. “Music From Big Pink” é uma aula sobre como fazer um disco: desde o conceito ‘orgânico’ das músicas, sem frescura ou exibicionismo gratuito, até à abertura da mente dos músicos para novas influências.

Por Ismael Calvi Silveira
Editor do site http://4oldtimes.blogspot.com e apresentador dos programas 4oldtimes e Expedição ao Rock na web radio www.radioputzgrila.com.br

Há 38 anos, chegava às lojas Basement Tapes, álbum de Bob Dylan e The Band

Mais um amigo dylanesco faz sua ‘estréia’, aqui no Blog Dylan: Ismael Calvi Silveira nos brinda com um ótimo texto sobre o álbum 'Basement Tapes', discaço de Bob Dylan & The Band. Vale conferir:

Há 38 anos, chegava às lojas Basement Tapes, álbum de Bob Dylan e The Band.
Dia 26 de junho foi dia de festa. Estamos todos nós, fãs daquilo que veio a se convencionar como "Americana", cheio de motivos para estarmos celebrando: na referida data se completaram 38 anos do lançamento de "The Basement Tapes", o registro oficial da primeira colaboração entre Bob Dylan e The Band, um encontro que mudaria o rumo da música norte-americana. Apesar de ter sido lançado apenas em 1975, as sessões que geraram "The Basement Tapes" ocorreram em 1967 e já circulavam, por baixo dos panos, como bootlegs. Vejamos, então, do que se trataram estas sessões e qual a importância deste disco chamado "The Basement Tapes".

Depois de uma extensa turnê mundial entre 1965 e 1966, apoiado pelos The Hawks (era assim que eles eram chamados antes de virarem The Band), Bob se encontrava cansado e havia caído em certa desgraça com seu público, que até o chamava de "Judas" por ter abraçado uma sonoridade mais próxima ao rock’n’roll. Quando retornou aos EUA, seu agente havia marcado mais inúmeras apresentações através do país, que acabaram sendo todas canceladas por um grande infortúnio. Em 29 de julho de 1966, Dylan sofreu um acidente de moto que mudaria tudo. Como o próprio bardo declarou, em entrevista cedida em 1969: "Eu tive um pavoroso acidente que me deixou fora da ativa por um tempo, e eu não percebi a importância daquele acidente pelo menos até ter se passado um ano. Eu percebi que havia sido um acidente real. Quer dizer, eu pensei que eu apenas me levantaria e voltaria a fazer o que eu fazia antes... mas eu não podia mais fazer isso".
Em sua casa, próxima a Woodstock, Dylan mudou seu estilo de vida durante o ano de 1967. Os Hawks foram chamados para comparecer à cidade para gravar com Dylan, e alugaram a Big Pink (casa que os rapazes tornariam famosa dois anos depois, ao lançar seu disco de estreia, “Music From Big Pink”). Nesse tempo que estiveram juntos, por vários meses, Dylan se reaproximou da música norte-americana de raiz e apresentou os caras da The Band a esse universo, já que até ali, eles eram estritamente músicos de rock. Entre a gravação de versões para antigas canções tradicionais e a composição de novos temas, uma certa sinergia surgiu entre mentor e alunos. O porão do Big Pink fornecia o pano de fundo caseiro, intimista, para o disco; a banda trabalhava para deixar Bob à vontade; e Dylan, por sua vez, destilava seu humor através da genialidade na composição. Havia algo ali de cunho bastante familiar, caseiro. E é disso que trata "The Basement Tapes" e os demais bootlegs: um ambiente rural, quieto e profundamente familiar.

É claro que o lançamento oficial, tão afastado das sessões originais, gerou polêmicas e controvérsias. A seleção de faixas, 24 ao todo, não representam todo o material composto em 1967 e, na verdade, tem 8 músicas que nem sequer contam com a participação de Dylan. De acordo com Robbie Robertson, principal responsável pela seleção das canções que entraram no álbum, isso aconteceu porque nem ele, nem Bob Dylan e nem Garth Hudson tinham acesso a todas as gravações originais. Criou-se um clima tenso, também, ao redor do disco: alguns críticos acreditavam que a inclusão das oito músicas da The Band era a forma de Robertson afirmar que o grupo fora tão ativo nas “Basement Tapes” quanto o bardo. Para os mesmos críticos, isso era um sacrilégio, já que as faixas da The Band "atrapalhavam a unidade do material de Dylan".

Mas polêmicas à parte, o álbum é, na minha singela opinião, sensacional. Há, nele, algumas de minhas canções favoritas da parceria Dylan/Band. "Goin' To Acapulco" certamente seria minha escolha primária, mas "Clothes Line Saga"; "Too Much Of Nothing"; "You Ain't Goin' Nowhere" e, é claro, "This Wheel's On Fire" não podem ficar muito pra trás. Acredito, inclusive, que essas canções servem muito bem para dar uma amostra geral da unidade do álbum. As temáticas mais frequentes foram o nada, sinalizando para o caráter descompromissado das sessões de gravação: eram apenas amigos se divertindo. E, nesse meio tempo, Bob Dylan pôde se reinventar e, também, se redescobrir. De certa forma, "The Basement Tapes" ia à contramão de outros álbums gravados em 67, como, por exemplo, o “Sargeant Pepper Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles. Como afirmou Bob em uma entrevista datada de 1978: "Eu não sabia como gravar da mesma forma que as outras pessoas fazem, e eu nem queria. Os Beatles tinham recém lançado Sgt. Pepper, que eu não curti nem um pouco. Achei ele um álbum bastante indulgente, apesar de as músicas neles seram realmente boas. Eu não achava que toda aquele produção fosse necessária."
 De qualquer forma, o que surgiu a partir disso foi o princípio de um novo jeito de se fazer (e mesmo de se pensar) música. Uma abordagem mais direta, sem tanta produção, que mergulhava em um universo ancestral de sonoridades que formaram a identidade musical norte-americana. "The Basement Tapes" e os outros bootlegs foram instrumentais na construção do "roots rock" e do "americana", eles materializaram um som tornado uníssono, que até então era uma multiplicidade enorme de estilos. Country, folk, blues... tudo foi jogado dentro do caldeirão, temperado com um rock suave e mexido até ferver e formar algo novo e único - algo genuinamente americano. E isso fica claro se nós dermos uma ouvida na discografia da The Band, por exemplo. Como explicou Joanna Colangelo, do site No Depression, no seu artigo "The Weight: Quando uma canção se torna um hino", o som da The Band, ou mais especificamente a canção "The Weight", representam a própria essência daquilo que é genuinamente americano.

Aquilo que foi alguns meses na vida de seis amigos acabou se tornando eterno na história da música. Horas de gravação se transformaram em um legado extenso de influência e de celebração. E é exatamente por isso que comemoramos hoje, 38 anos depois do lançamento da versão oficial daquelas gravações, as "Basement Tapes".

Por Ismael Calvi Silveira
Editor do site http://4oldtimes.blogspot.com e apresentador dos programas 4oldtimes e Expedição ao Rock na web radio www.radioputzgrila.com.br

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Everybody must get stoned...


O amigo dylanesco, colaborador assíduo deste blog e grande escrevinhador, Diego Quadros, faz sua singela homenagem ao álbum 'Blonde on Blonde', que esta semana completou seu 47º aniversário, ainda exalando o frescor da juventude. Vamos ao texto:

47 anos de ‘Blonde on Blonde’, de Bob Dylan – o primeiro álbum duplo de relevância no rock e na música pop em geral.


Não está exatamente entre os meus favoritos e tenho certeza de que muitos dylanmaníacos não compartilham do sentimento. Mas é inegável que ‘Blonde on Blonde’, sétimo álbum do Dylan, lançado em 16 de maio de 1966, é dos mais importantes em vários aspectos. E também figura entre os melhores da extensa carreira do bardo. Por quê? Em primeiro lugar, pelas faixas que compõem o trabalho. Temos ali alguns dos maiores sucessos do cantor, como ‘Just Like a Woman’, ‘I Want You’ e ‘Stuck Inside of Mobile with the Memphis Blues Again’, e canções cujas letras esbanjam preciosas imagens poéticas, tal qual ‘Visions of Johanna’ (essa, das minhas favoritaças). Mas o repertório é apenas uma das munições desse disco, eleito – okay, eu sei o quão furadas são essas listas! – pela revista Rolling Stone o nono melhor de todos os tempos. Na minha opinião, é o conjunto de ousadias inovadoras – ou de inovações ousadas – que torna esse bolachão duplo tão relevante à música popular e, sendo mais específico, ao rock and roll como ritmo, gênero musical e filosofia de vida.


Antes de tudo, consideremos o período em que foi gravado, durante a turbulenta digressão em que Dylan e seus então escudeiros nomeados The Hawks (futuros The Band) eram massivamente vaiados e xingados por todo o território norte-americano, e também pelo resto do mundo, em virtude de o ex-cantor folk de protesto ter se rendido à eletrificação e ao mercantilismo musical. (Isso, aliás, é frequentemente citado por mim como exemplo de “colhões” que tanto faltam a certos artistas de hoje, que mal toleram uma vaiazinha básica e desatam a choramingar e “xingar muito no Twitter”. Vão se foder!) Outro ponto chave de contextualização é ter em mente que Blonde on Blonde seria o último álbum de Mr. Robert Allen antes do famigerado acidente de motocicleta, que o retiraria de cena por um bom tempo e que precederia álbuns totalmente diferentes na sequência dos anos.


Pois talvez fosse já vislumbrando mudanças na carreira que Dylan trocou os estúdios de Nova Iorque pelo de Nashville, capital da country music, naquela virada de 1965 pra 1966, a fim de gravar esse disco. E que escolha acertada! Das histórias conhecidas de bastidores das gravações, Blonde talvez seja o que tenha rendido os causos mais peculiares e engraçados. Logo de cara, sabendo da exigência de Bob em registrar as músicas ao vivo, com todos os músicos tocando ao mesmo tempo, o produtor Bob Johnston precisou mandar pôr abaixo a serrote e marreta todas as divisórias que separavam o ambiente. Dylan chegou no estúdio apenas com fragmentos esparsos de letras, sem apresentar aos músicos contratados, pelo menos no início das sessões, qualquer composição propriamente finalizada. Simplesmente escrevia a letra na hora e mandava que o acompanhassem. E o que era pior: quando todos pensavam se tratar de ensaio pra determinada canção, o artista maluco que os contratara decretava sem rodeios que o take recém executado era o que seria incluído no disco. E foi assim com praticamente todas as faixas. Sem contar os títulos, que eram escolhidos aleatoriamente no calor do momento.


As duas canções que respectivamente abrem e fecham o álbum também renderam boas lembranças por parte dos envolvidos. A primeira, ‘Rainy Day Women #12 & 35’, cujo refrão proferia o ambíguo verso “everybody must get stoned” (algo como “todo mundo precisa ser apedrejado” e “todo mundo precisa ficar chapado”), de acordo com Dylan, não podia ser executada por um bando de caretas. Então ele fez que buscassem a bebida mais forte de Nashville (um líquido verde sugestivamente batizado de Leprechaun) e distribuiu baseados pelo estúdio no intuito de “relaxar” a rapazeada. Como se não bastasse, os músicos também decidiram trocar de instrumentos entre si, não importando se dominavam ou não as técnicas inerentes a cada um. Afinal, a descontração era o espírito desse som, não? O resultado é aquela faixa gozada, ao estilo de banda de marchinhas desengonçada, com gargalhadas e risadinhas carregadas de chapação entre uma estrofe e outra. Em outras palavras: uma canção fantástica! (e que chegou a ser banida das rádios por conta da paranoia moralista da época).


Na gravação da segunda canção referida, ‘Sad Eyed Lady of the Lowlands’, que encerra ‘Blonde on Blonde’, o que até então era impensável aos profissionais músicos do Tennessee: Dylan rabisca umas estrofes, mostra parte da música, pede que o sigam e então todos começam a tocar verso, após verso, após verso, após verso, após… os ponteiros do relógio engoliam o tempo, mas o compositor não dava sinais de que finalizaria a canção… passaram-se cinco minutos, dez minutos, onze minutos… até que Bob Dylan apontou aos companheiros o momento do desfecho. Acostumados a gravar faixas de dois minutos e meio, atendendo aos padrões comerciais das rádios, os caipiras não acreditavam que o carinha estranho de cabeleira emaranhada (“sussurrar algo em seu ouvido era como enfiar a cara no matagal”, lembrou alguém na ocasião) e que mal se comunicava com eles incluiria no disco uma faixa de onze minutos e vinte segundos. Mas assim aconteceu! E ‘Sad Eyed’ foi a canção popular mais longa já gravada naquele período.


Penso que foi esse conjunto de fatores inusitados, inerentes a uma personalidade complexa, multifacetada, que fez de ‘Blonde on Blonde’ um álbum tão revolucionário como o seu predecessor, ‘Highway 61 Revisited’ - o primeiro duplo, o que continha a música mais longa do mercado fonográfico, o primeiro de um artista pop a ser gravado na country roots Nashville, o primeiro a citar o nome dos músicos de apoio locais na sua capa (o que gerou boa publicidade aos mesmos), etc, etc. Muitas outras abordagens poderiam ser feitas, por fãs que manjam até muito mais do que eu sobre o assunto, e tenho certeza de que todas seriam válidas e construtivas, porque é impossível definir um valor fixo, uma verdade absoluta, não só pra esse disco específico como pra toda obra do cantor de voz anasalada que tinha “as unhas sujas e não cheirava muito bem”.


Resta aí a lembrança.

Referências:
- Dylan, a biografia – de Howard Sounes;

- No direction home – a vida e a música de Bob Dylan – de Robert Shelton.

Originalmente publicado em 16 de maio de 2013, no ContraVersus.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Simplesmente "A Banda"


Um grupo que se intitula apenas de "a banda" chama a atenção logo de cara. Com um nome simples e, ao mesmo tempo pretensioso - afinal se chamar de "a banda" pode soar por demais arrogante - The Band era um quinteto no qual quatro de seus integrantes eram originários do Canadá e um americano, que marcou o mundo da música nas décadas de 60 e 70. Seu primeiro disco, “Music from Big Pink”, chamou a atenção por vários motivos: num ano - 1968 - em que os jovens usavam cada vez mais roupas psicodélicas e colocavam a guitarra em primeiro plano, esses cinco homens se vestiam com roupas do início do Século XX e apostavam em arranjos tão sofisticados e delicados que pareciam uma ofensa. Mas a Band já era muito calejada. Juntos desde 1961, quando ainda eram conhecidos como The Hawks, o grupo já tinha uma longa estrada como grupo de apoio de um verdadeiro mito - Bob Dylan. Junto dele, viveram alguns dos mais belos momentos da história e gravaram discos antológicos. Dylan não participou de “Music from Big Pink” - ao menos oficialmente - mas deixou sua marca em algumas parcerias nas composições e na bela capa. De quebra, esse disco é considerado - atenção, fãs de listas!!! - uma das 10 mais belas estréias do rock. Uma coisa muito, muito fina. E se você ficou curioso ou achando que isso tudo muito pretensioso, bem... espere até ouvir The Band. Afinal, eles são A BANDA, certo?

Muito antes desses cinco cavalheiros mostrarem toda sua classe e capacidade em sua lendária carreira, é preciso voltar ao passado de Robbie Robertson, Rick Danko, Richard Manuel, Garth Hudson e Levon Helm, quando em 1958 nascia The Hawks.O The Hawks era, na verdade, uma banda de apoio para o cantor Ronnie Hawkins, um cantor de rockabilly que começava a ficar famoso, mas ainda não tinha alcançado um grande sucesso. Em 1958, Ronnie contratou um jovem talento chamado Levon Helm, nascido em 26 de maio de 1940, em Marvell, Arkansas. Apesar da pouca idade - 18 anos - Levon já tinha passado por algumas bandas locais e tocava guitarra, baixo acústico e bateria. E foi como baterista que entrou para a banda de Hawkins.

Mas Ronnie estava insatisfeito com sua carreira. Ele percebeu que se ficasse no sul dos Estados Unidos seria apenas mais um a cantar rockabilly. Foi então que o guitarrista dos Hawks, Jimmy Ray "Luke" Paulman entrou em contato com Conway Twitty, que fazia vários shows bem mais ao norte, precisamente no Canadá. Twitty tinha um homem forte lá, Coronel Harold Kudlets, que conseguia apresentações por todo país e até em algumas cidades do norte dos Estados Unidos, como Detroit e Buffalo. E Ronnie Hawkins and the Hawks perceberam que lá poderiam tornar-se algo grande. Assim, mudaram para Toronto, onde realmente eram considerados a grande sensação com seu rockabilly energético.Em 1959, Ronnie Hawkins lança seu primeiro disco que levava apenas seu nome e havia gravado em abril. Com 12 músicas, o disco marcou a estréia de Levon Helm na banda. Além dos dois, Jimmy "Left" Evans tocou baixo; Jeannie Grennie fez backing vocals; Willard "Pop" Jones tocou piano e Jimmy Ray "Luke" Paulman, tocou todas as guitarras. O produtor foi Joe Reisman.Com um disco lançado, aos poucos, o Hawks foi sofrendo mudanças em sua formação. Após Helm, outro futuro membro do The Band a entrar no grupo foi o guitarrista Robbie Robertson. Nascido no dia 5 de julho de 1943, em Toronto, Robbie era ainda menor de idade - 17 anos -, quando começou a tocar com Ronnie. E assim como Levon, Robbie já havia tido sua experiência no meio musical, integrando bandas como Robbie and the Robots, Thumper and the Trambones e Little Ceasar and the Consuls. Inicialmente assumiu o baixo e foi apadrinhado pelo então guitarrista Fred Carter Jr.

Em 1960, Ronnie Hawkins lançaria outro disco, “Mr. Dynamo”. Levon Helm começava a ganhar destaque escrevendo quatro canções - sendo uma delas sozinho: "Hay Ride", "Baby Jean" e "Southern Love" - essas três em parceria como Roonie e com Magill. Sua composição própria era "You Cheated (You Lied)", que chegou ao 12º lugar na parada dos Estados Unidos. Nesse disco Robbie Robertson já apareceria pela primeira vez como compositor. Robbie dividiu com Magill e Hawkins a autoria de "Hey Boba Lou" e "Someone Like You", embora não conste nos créditos como músico, pois ainda não havia sido nomeado um membro oficial dos Hawks. Nesse disco o baixo ainda era de Jimmy "Lefty" Evans, e Ronnie havia adicionado Fred Carter Jr. como segundo guitarrista.


No final de 1960, entraria o terceiro futuro membro da The Band, Rick Danko. Nascido em 28 de dezembro de 1943, em Simcoe, Rick tocava em grupos locais desde os 12 anos e havia ficando maluco com a energia do grupo após assistir uma apresentação. Rapidamente assumiria a guitarra-rítimica e depois o baixo. Em 1961 é a vez de Richard Manuel entrar no grupo. Nascido em 3 de abril de 1943, em Stratford, Manuel também havia tocado em uma banda local em sua cidade, os barulhentos Rockin' Revols. Richard era um vocalista de origem, mas se descrevia como um "pianista rítmico", capaz de nada muito complicado, mas bom o suficiente para arranjar um espaço nos Hawks.E, finalmente, entrou o último membro que faltava do The Band. E o mais velho de todos. Garth Hudson era um músico de grande habilidade e que entrou para o grupo com 24 anos (nasceu em 2 de agosto de 1937, em London, Canadá. Apesar de ser um grande pianista, Hudson era também hábil com instrumentos de sopros, como o sax tenor e exercia o papel de líder no grupo Paul London and the Kapers e haviam gravado alguns compactos em 45 rotações em Detroit, pelo selo Checkmate. Quando Levon Helm tratou rapidamente de pedir sua contratação pela sua versatilidade: "ninguém tocava piano e instrumentos de sopros como Garth. Quando Ronnie finalmente o trouxe para junto de nós, começamos, de fato, a soar como um grupo profissional.”

Mas a única maneira de manter Garth na banda era o contratando e pagando por isso, já que sua família não aprovava que Garth vivesse com uma banda de rock and roll. A saída foi contratá-lo como professor de música para seu grupo e membro dos Hawks. Ronnie já atravessava um período de baixa em sua carreira, apelando de todas as maneiras para conseguir algum sucesso. De 1959 a 1963 lançou alguns álbuns e compactos, sempre com Helm na bateria, até todos eles serem demitidos por Ronnie em 1964.No mesmo ano, eles começam a tocar com o nome de Levon Helm Sextets e conseguiram mais dinheiro do que haviam tido com Ronnie. Além dos cinco integrantes do Band, constavam o cantor Bruce Bruno e o saxofonista Jerry Penfound. Em seguida eram Levon and the Hawks e estavam tocando pelo Missouri, Arkansas, Oklahoma e Texas, nas fraternidades locais, festas de escolas, além de vários shows pelo Canadá.

Nesse período gravaram o compacto; "Leave Me Alone" e "uh-Uh-Uh" para o selo Ware, de Nova York, em 1964, com o nome de Canadian Squires. Em 1965 gravaram "The Stones I Throw" e "He Don't Love You (And He'll Break Your Heart)", para a Atco, em 1965 e os lançaram como Levon and the Hawks. Nesses discos, tanto Bruce como Jerry já estavam fora do grupo.As quatro canções marcavam algumas inovações: todas eram escritas por Robbie Robertson, que começava a mostrar um grande talento como compositor e o som estava se aproximando da música negra. Robbie conta que estava muito influenciado pelos Staple Singers: "quando escrevi "The Stones I Throw' eu estava tremendamente influenciado pelos Staples Singers. Eu considero Pops Staples um dos melhores cantores que já existiram. Ele parece um trem quando canta e tem uma qualidade única, de poder sussurrar, que me deixava maluco. Era uma canção fora do nosso contexto quando a gravamos e só fazia sentindo quando eu falava no grupo que havia me inspirado.”

A virada na carreira

Em 1965, no entanto, o grupo recebeu um convite que iria mudar radicalmente sua vida: através de uma secretária de Toronto chamada Mary Martin, que trabalhava para o empresário Albert Grossman, eles foram sugeridos para acompanhar Bob Dylan em sua entrada no rock elétrico, quando esse deixou suas composições mais folks e abraçou a guitarra elétrica. Mas Dylan não chamou todos os membros do Hawks para tocar com ele, de início. Primeiro, convidou Robbie Robertson para dois shows: um em Forest Hills, em Nova York e depois em Los Angeles, no Hollywood Bowl. Robbie confessa que não gostou nem um pouco do som que o baterista de Dylan tirava e sugeriu o nome de Levon. Dylan aceitou a sugestão e junto com o pianista Al Kooper e o baixista Harvey Brooks fizeram as duas primeiras apresentações de Dylan em formato elétrico depois da famosa e lendária vaia que tomou no Newport Folk Festival, quando tocou acompanhado de Al Kooper e da Paul Butterfield Blues Band.


Dylan gostou tanto de Robbie e de Levon que os convidou para integrar sua banda que faria vários shows pela América e pela Europa. Os dois argumentaram que isso seria impossível sem os demais integrantes do Hawks. A saída foi realizar alguns ensaios em setembro de 1965, em Toronto, para em seguida, saírem pelo mundo.Os Hawks acabaram se mudando para Nova York, local de residência de Bob Dylan e tiveram um começo difícil, já que Dylan, em suas apresentações, era sistematicamente vaiado por seus antigos fãs, que o acusavam de ter se vendido e abandonado o purismo folk para fazer sucesso. E as vaias eram tão intensas, que Levon Helm, após alguns shows, não suportou mais a tensão e desistiu. "Levon dizia que não queria mais aquilo, que não conseguia mais sentir prazer. Eu disse que ainda descobriríamos nosso som próprio, mas que isso levaria algum tempo, e que, enquanto isso, iríamos tocando e ganhando dinheiro", disse Robbie, que não convenceu, no entanto, seu colega a voltar ao grupo.

Após a excursão, Dylan resolveu se refugiar na cidade de Woodstock para começar a trabalhar em um documentário da viagem à Europa. Rick Danko e Richard Manuel começaram a viajar regularmente à cidade para auxiliar no documentário. E durante essas viagens, Danko achou uma casa estranha, que ficava em um lugar silencioso. A casa era conhecida como Big Pink e acabaria sendo o lar do grupo e, até de Dylan, por um bom tempo. Richard Manuel, Rick Danko e Garth Hudson mudaram-se imediatamente, enquanto Robbie mudou-se para a vizinhança. O local era como a realização de um sonho: ampla, longe da mídia e do público, com muito espaço para ensaios.Ali, Dylan e os quatro músicos remanescentes do Hawks trabalhavam febrilmente, compondo, ensaiando e gravando no porão da casa em um gravador de dois canais. Anos depois, essas gravações, de 1967, sairiam em forma de um antológico disco duplo, em 1975: The Basement Tapes.

A convivência com Dylan faria a banda melhorar em vários aspectos, principalmente nas letras. Robbie conta que no começo não dava muita importância para o aspecto poético de suas canções. "Mas eu tinhas minhas influências - rock and roll, country e blues e era tremendamente influenciado por cantores como Curtis Mayfield e tocava as músicas deles para Bob e dizia 'ouça a voz, o clima, é isso que devemos fazer'. Todo aquele período foi extremamente rico para nós. Ficávamos horas e horas falando de nossas influências."Aos poucos, o som do grupo ia mudando, deixando o rock mais cru dos tempos com Ronnie Hawkins e tornando-se mais elaborado.

"Enquanto eu toquei com Ronnie e com Dylan, eu tocava guitarra de maneira bem alta, raivosa e quando comecei com Ronnie não havia ninguém que soasse assim. Havia apenas Roy Buchanan e eu. Eu era um soldado da guitarra. Quando eu comecei a tocar guitarra era como uma vingança, tocava com raiva. Eu treinava diariamente, cada vez mais e mais e ninguém nesse mundo treinou mais do que eu treinei naqueles dias. Eu era jovem e com a atitude correta. Minha guitarra soava como uma ejaculação precoce. Aos 20 e poucos anos eu tocava com Dylan centenas de vezes os mesmos solos e queria morrer por causa disso. Por isso, quando resolvemos encontrar nosso som, eu queria algo completamente novo. Então pensei que quando começássemos o nosso disco, não iria fazer nenhum solo de guitarra no disco inteiro. Iria tocar apenas riffs. Também queria encontrar um som único para a bateria, um som especial para o piano. Eu não queria vocais gritados, queria vozes sensíveis em que você pudesse ouvir a respiração e elas entrando. E esse tipo de vocalização demora a ser encontrando. Eu ouvia nos discos da época uma voz anulando a outra e queria que cada uma entrasse devagar, que provocasse uma reação como os Staples Singers. Mas, por causa do fato de sermos todos homens, isso teria um efeito diferente. Todas essas idéias vinham à minha mente.”

E para montar todo esse quebra-cabeça, onde ninguém dentro do grupo era mais importante do que o outro, faltava um componente essencial: Levon Helm.O grupo - já rebatizado como The Band - já tinha algumas sessões em estúdios agendadas através de Albert Grossman. Então, Danko ligou para Levon chamando-o para integrar novamente a Band. "Disse a ele que havia algumas centenas de milhares de dólares nos esperando e perguntei se ele não queria compartilhar todo esse dinheiro conosco. Ele respondeu que estaria no próximo vôo", lembra Danko.Mas antes de Levon voltar à The Band, o grupo tinha marcado uma sessão a fim de gravarem duas canções, que foram produzidas por Grossman. As sessões foram um fracasso e Robbie concluiu que eles não soavam nada com aquilo que ele imaginara.Com o grupo insatifeito com a produção de Grossman, resolveram procurar um outro produtor e foram atrás de John Simon. Simon lembra que a primeira vez que viu (e ouviu) a The Band estava ocupado trabalhando com Peter Yarrow (do trio folk Peter, Paul & Mary) fazendo uma trilha sonora de um filme chamado You Are What You Eat, na casa de Howard Alk. "Começamos a ouvir um som das ruas e quando abrimos a janela vi quatro caras vestidos com aquelas roupas totalmente estranhas, com instrumentos malucos cantando parabéns, pois era aniversário de Howard." Após alguns encontros, já com Levon, resolveram trabalhar.

Assim, no dia 10 de janeiro de 1968, todos foram para Nova York para os estúdios da A&R e gravaram algumas músicas: "Tears of Rage", "Chest Fever", "We Can Talk", "This Wheel's On Fire" e "The Weight".Simon disse que o estúdio tinha uma acústica maravilhosa e que gravaram em quatro canais: dois deles para gravações dos instrumentos "ao vivo" - incluindo vocais - outro canal para os metais e o quarto para voz e percussão.Robbie estava particularmente interessado em encontrar um som para a bateria e, entre outras coisas, sugeriu colocar um pedal de wah-wah na pele da bateria para dar um som poderoso, como de um trovão. A idéia acabou gerando o que tanto Robbie desejava - um som único, particular e que seria uma das marcas da The Band.Enquanto gravavam, Grossman resolveu arranjar um melhor contrato para os rapazes e sugeriu que eles se mudassem para a Capitol Records e voassem para Los Angeles. Grossman afirmou que em Los Angeles eles teriam um estúdio melhor, de oito canais e que o clima de Los Angeles, em janeiro, era mais ameno do que de Nova York. Após aceitarem o argumento, pegaram as cinco canções gravadas em Nova York nos estúdios da A&M e voaram para a Califórnia.

As sessões correram da melhor maneira possível e a Band conseguia finalmente encontrar o som que tanto sonhavam. O grupo resolveu inovar desde o início. Foi idéia de Robbie abrir o disco com a lenta e triste "Tears of Rage", composta por Richard Manuel e Bob Dylan e cantada pelo primeiro. Nunca um grupo de rock havia colocado uma música lenta na abertura do disco. A idéia de Robbie era fazer o grupo soar de maneira tão original desde a primeira faixa. A segunda canção seria "To Kingdon Come", uma das raríssimas vezes em que o guitarrista assumiu os vocais."Eu estava influenciado ao mesmo tempo por Luís Buñuel (diretor de filmes espanhol), Akira Kurosawa (diretor japonês) e por John Ford. Eu estava sedento por cultura pois não ia à escola desde meus 16 anos e comecei a ler e ver esses tipos de filmes. Acabei me aprofundando dentro dos mitos europeus, nórdicos, etc.."Mas, entre tantas canções, uma delas se destacou e virou um marco na vida do grupo: "The Weight". Inspirada no diretor espanhol, Robbie conta um pouco sobre como a escreveu: "Buñuel escreveu muito sobre a impossibilidade da santidade, sobre pessoas tentando serem boas. A canção veio daí. Pessoas como ele podem fazer um filme falando dessas conotações religiosas, mas sem passar uma imagem religiosa. Nos filmes dele, há muitas pessoas tentando ser boas e descobrindo que é impossível ser bom.”

"'The Weight' começa com alguém dizendo 'você pode me fazer um favor e dizer alô a uma pessoa? Oh, você está indo para Nazaré, a terra da fábrica das guitarras Martin? Então me faça esse favor quando estiver lá' e o cara vai e uma coisa acaba levando a outra coisa até que ele percebe que não sabe mais o que está acontecendo e que precisa dar um oi para alguém que ele não conhece. Isso é bem Buñuel. Quando eu escrevi a canção quis criar algo como um mito da América. A Nazareth que pensei, era a cidade da Pennsylvania e não Nazareth de onde veio Jesus Cristo. Eu nem sei porque deram esse nome à cidade, mas tentei criar uma história em torno disto."Levon Helm disse que a canção possui alguns do personagens favoritos de todo o grupo: Luke é Jimmy Ray Paulman, dos Hawks; Young Anna Lee é Anna Lee Williams do Turkey Scratch e Crazy Chester é um cara que vinha de Fayetteville todos os sábados vestindo um daqueles cintos em que você coloca espingardas na cintura."Para fechar o disco, escolheram uma composição até então inédita de Bob Dylan, "I Shall Be Released", com um belo tratamento vocal de Manuel, Danko e Helm.

Quando foi lançado em 1968, “Music from Big Pink” não alcançou o sucesso esperado. Primeiro, porque o nome do grupo confundia as pessoas. Depois porque eles teimavam em usar nas fotos do álbum roupas soturnas e conservadoras demais para o padrão da época. Para contrastar, a capa do disco era um desenho feito por Bob Dylan. As fotos, que acabaram sendo uma marca registrada do grupo, foram tiradas pelo desconhecido fotógrafo Elliott Landy, que foi escolhido da maneira mais inusitada possível: "eu perguntei quem era o pior fotógrafo de toda Nova York porque queria essa pessoa para nos retratar. Ninguém soube me dar um nome, mas me disseram que havia esse tal de Elliot que trabalhava para uma revista furreca chamada RAT, disparada a pior de todas. Acabamos chamando-o e ele fez um trabalho incrível", afirmou Robbie.Para aumentar o estranhamento, na contra-capa do disco aparece a famosa casa rosa. O disco teve uma carreira modesta nas paradas de sucesso, alcançando apenas a 30ª posição nas paradas e isso porque George Harrison e Eric Clapton se derramarram em elogios ao trabalho. Clapton disse que era seu disco favorito e um dos mais importantes de todos os tempos. Ainda assim, "The Weight" foi apenas o número 63 nas paradas na América e 21 no Reino Unido.


Em agosto de 2000, o disco foi relançado em uma versão remasterizada, com nove faixas a mais incluindo outtakes da primeira gravação com Grossman, como é o caso de "Ferdinand The Imposter", que foi incluída mais pelo valor histórico do que musical.Ironicamente, "The Weight" faria mais sucesso nas vozes de Jackie DeShannon e na de Aretha Franklin (incluindo uma canja de Duane Allman na guitarra), ambas gravadas em 1969 e inferior à original. Isso, contudo, serviu para popularizar ainda mais o disco, tido como um dos grandes lançamentos da história do rock e peça obrigatória para quem quer conhecer a história da música.

Em 1969 a banda apresentava seu novo disco, chamado simplesmente “The Band”, recheado de belíssimas canções, como “Up On Cripple Creek”; “Rag Mama Rag”; “When You Awake” e “The Night They Drove Old Dixie Down”, entre outras. A seguir, em 1970, viria “Stage Fright”, terceiro rebento do quinteto. Talvez o disco mais pessoal da banda, focado em seus demônios internos e na angústia diante do sucesso obtido.


Seguiram-se os álbuns “Cahoots” (1971); “Rock of Ages” (1972), um show memorável em Nova York, o qual, ao final, sem nenhum anúncio ou publicidade, contou com a participação-surpresa do legendário Bob Dylan; “Moondog Matinee” (1973); “Northern Lights – Southern Cross” (1975) e “Islands” (1977).
Em novembro de 1976, a banda reuniu seus amigos para celebrar seu concerto de despedida, no Winterland Ballroom em San Francisco. “The Last Waltz” seria o show de "adeus" da banda, após de 16 anos fazendo turnês. The Band teve a compania de mais de uma dúzia de convidados especiais, incluindo Eric Clapton, Neil Diamond, Bob Dylan, Joni Mitchell, Van Morrison, Ringo Starr, Muddy Waters e Neil Young.
O evento foi filmado pelo cineasta Martin Scorsese e transformado em um documentário, lançado em 1978. O filme destaca performaces do show, cenas gravadas em estúdio e estrevistas com os membros da banda.

O Fim
The Band acabou se tornando uma instituição da música norte-americana e em 1986 os fãs foram devastados pela notícia do suicídio de Richard Manuel, que no dia 4 de março se enforcou em um quarto de motel em Winter Park, na Flórida, numa excursão que marcava a volta da formação original. A Band, ou o que restou dela, seguiu tocando até os anos 90, com vários músicos convidados, sem Manuel e Robertson, que recusou-se a participar do projeto de continuidade, dizendo-se fiel aos ideais do Last Waltz.

Discografia

1964-1965:
Uh-Uh-Uh / Leave Me Alone (compactos de 1964, como The Canadian Squires)
The Stones I Throw / He Don't Love You (compactos de 1965, como Levon and the Hawks)
Go Go Liza Jane / He Don't Love You (relançamentos em 1968, como Levon and the Hawks)
1968-1978:
Music From Big Pink (1968)
The Band (1969)
Stage Fright (1970)
Cahoots (1971)
Rock of Ages (live, 1972)
Moondog Matinee (1973)
Northern Lights - Southern Cross (1975)
Islands (1977)
The Last Waltz (ao vivo/estúdio, 1978)
1993-1998:
Jericho (1993)
High On The Hog (1996)
Jubilation (1998)
Álbuns com Bob Dylan:
Planet Waves (1974)
Before the Flood (1974)
The Basement Tapes (1975)


Fonte principal: Mofo http://www.beatrix.pro.br/mofo/