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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Johnny Cash & Bob Dylan

No final da década de ´60, mais precisamente no ano de 1969, dois grandes ícones da música americana, Bob Dylan e Johnny Cash, se reuniram para apresentação em um programa de TV e sessões de gravação em estúdio. Essa parceria rendeu uma música incluída no álbum ‘Nashville Skyline’, de Dylan e em uma série de bootlegs que circulam mundo afora. Abaixo, transcrevo um belo texto sobre o assunto, da lavra de Rodrigo de Andrade e publicado originalmente no site ‘Os Armênios’ (um dos melhores sobre música e litaratura), em 2006. A transcrição respeita integralmente a inusitada escrita do autor e sua publicação original pode ser vista no seguinte endereço: http://www.osarmenios.com.br/2006/07/johnny-dylan/

Segue o texto:

para maurício rigotto, com admiração.

anteontem assisti johnny & june. & o tempo inteiro fiquei pensando no quanto ka$h & dylan tem em comum.

ambos levavam uma carreira em ritmo frenético, excursionavam sem parar (a never ending tour de bob segue até hoje) & como conseqüência acabaram entupidos de boletas. durante a infância, sentiam enorme paixão pela música popular que rolava nas rádios locais (country & folk & western & boogie & gospel & traditional & cajun & bluegrass & honky tonk & blues…). na gênese, se envolveram com música da mesma forma (ainda que os quase dez anos de diferença na idade possibilitaram a dylan viver o boom do rock ainda na adolescência). mas zimmerman não tinha um relacionamento tão tempestuoso com o pai, & nem o apego religioso, & nem a tragédia com um irmão tão próximo (ainda na infância) como o lendário homem de preto. & ka$h fora profundamente marcado por isso tudo.

lembro que no alta fidelidade, rob gordon comenta algo como “tenho que admitir que meu livro predileto é ka$h, a biografia de johnny ka$h, escrita por johnny ka$h”. prefiro o filme do que o livro. & talvez me arrependa de escrever isso porque um monte de alternativos de plantão vão me cacetear defendendo o nick hornby (mas vai ser divertido). o fato é que o livro preferido do rob nunca vai chegar ao brasil, & johnny & june é uma bela oportunidade de conferir um pouco da biografia do ka$h.

todo mundo fala do verão de 1964, quando al aronowitz intermediou o encontro de dylan com os quatro cabeleiras do pós-calipso, & de como o judeu safado teria apresentado o fuminho do capeta aos rapazes (o que é um equívoco, porque john & george já eram chegados num beiseball). ok, foi um acontecimento marcante, eles se admiravam, se influenciavam, ficaram amigos & mudaram o mundo. mas pouco antes desse encontro, no newport folk festival (não no da eletrificação, mas na edição anterior), bob tinha conhecido alguém que lhe era muito mais caro, & que howard sounes comenta na biografia não-autorizada do artista (& que o cara daquele livro do comedor de xis – que é bem legal – comentou que o peninha achou a obra meio hebe camargo):

“Apesar do novo trabalho ter recebido críticas positivas e negativas, o festival foi pessoalmente importante para Bob porque ele finalmente conheceu o artista country Johnny Cash, com quem estivera se correspondendo e cuja música ele admirava há tempos. Bob e Johnny ficaram tão felizes por se conhecerem que, juntamente com Joan Baez e June Carter Cash, puseram-se a pular para cima e para baixo na cama do quarto de motel de Cash, ‘como crianças’, como este descreveu“. (p. 148 da edição brasileira, da konrad).

a partir daí, a presença de ka$h é sentida em fatos pitorescos da carreira de dylan. um ano depois, novamente no newport folk festival (aí sim), após o set elétrico de zimmerman (que derrubou o cu dos caretas & a gente pode ver & rolar & chorar & rir, no no direction home), bob volta ao palco (uns garantindo que aturdido pelas vaias, outros dizendo que rindo da armadilha que ele mesmo programara). estava com um violão em punho. foi aplaudido pela platéia, & quando pediu uma gaita trêmula emprestada, o público prontamente providenciou centenas. mas aquele violão, quem emprestou para ele, nos bastidores, fora ka$h.



bootleg series: as sessões de dylan & ka$h

em fevereiro de 1969, dylan estava em nashville gravando a (ótima) peça de country/folk-rock nashville skyline. no mesmo estúdio, ka$h também trabalhava em seu novo álbum. resolveram registrar umas canções juntos. bob johnston, produtor, conta que eles pegaram seus violões & simplesmente começaram a tocar… por umas duas horas. Foram umas dezoito músicas, & em algumas foram acompanhados por membros da banda de ka$h. dessas, apenas uma foi parar no disco de bob. uma versão suja & marcante de girl from the north country, que abre o disco. ainda assim há peças preciosas que nunca viram a luz do dia (apenas em versões piratas): matchbox, that’s alright mama, walk the line, ring of fire… essas outras canções estão presentes numa série de títulos piratas.

num do números da (então ressucitada) revista bizz, aproveitando o lançamento do documentário de scorcese & o volume sete da antológika bootleg series de dylan, produziram uma matéria bem legal sobre esses lendários registros de dylan que acabam vindo a tona em lançamento piratas fuleiros, com qualidade sofrível. a alegria dos fãs é quando esses tesouros são oficializados com qualidade decente nas bootlegs series. e o pessoal da bizz apostou na oficialização das sessões no porão da big pink, que já garantiria uma caixa com vários CDs (e seria incrível!). but, ainda mais com a onda por causa de johnny & june, prefiro acreditar (e torcer) pelo lançamento dessas sessões de dylan & ka$h em nashville.

para quem não agüenta esperar, esses registros circulam pela internet, & são facilmente encontradas nos mais diversos compartilhadores de arquivo. só posso dizer que vale a pena. procure pelos bootlegs “nashville 1969″ & “aces & diamonds”, ou mesmo por “dylan & cash sessions”.

outra da biografia escrita pelo sounes (p. 215): “De todas as estrelas da música que tinham suas bases no sul, a relação mais calorosa de Bob foi com Johnny Cash. Um sinal de afeição por Cash foi ele ter deixado de lado sua profunda implicância com a televisão para se apresentar na estréia do programa de televisão de Cash, gravado ao vivo no Ryman Auditorium, em Nashville – lar do Grand Ole Opry – em 1º maio de 1969“. na época, dylan andava completamente recluso. o fato da gravação ser com platéia, & de que nada poderia dar errado (seria take único) o deixou visivelmente perturbado (ou fora apenas uma paranóia, fruto dum baseado, maybe). ainda assim ele tocou três canções, sendo acompanhado por ka$h em girl from the north country. mas o show foi um enorme sucesso do programa, sendo reprisado várias vezes & colaborando com a promoção das vendas de nashville skyline. o áudio da performance também é encontrado nos títulos piratas listados acima.

nota de rodapé: recados achados no lixo

desde 1964 que dylan tinha um fã obsessivo chamado alan jules weberman. o mala incomodava muito: organizava manifestações em frente a residências de bob, publicava matérias dizendo que deviam ser feitos testes com a urina do rockeiro para constatar que ele era viciado em heroína, entre outras barbaridades. a verdade é que weberman era um junkie doidão & colecionava condenações pelos mais diversos motivos, desde vender maconha até agressão a um policial. entre suas pérolas, há o “método dylanológico” para se interpretar mensagens ocultas nas letras de bob. bobagem pura. em agosto de 1970, o retardado roubou um saco de lixo da casa do artista. chegou a desenvolver um método que consistia em se valer do lixo como base para artigos de jornal (que resultou no livro my life in garbology – minha vida na lixologia). entre as coisas que ele achou no lixo de dylan, havia o início de uma carta para johnny ka$h.

o judeu, o kountry & discos… menores???

após a monstruosamente genial trilogia de 1965/66 (composta pelos lendários álbuns bringing it all back home, highway 61 revisited & blonde on blonde) a crítica, o público & os fãs estranharam o direcionamento de dylan. john wesley harding (no finalzinho de 1967) & nashville skyline (1969) eram discos de country-rock. a diferença era evidente, mas como se tratavam de trabalhos com qualidade inquestionável, & apontou caminhos seguidos até mesmo pelos beatles & os stones (no álbum branco & beggars banquet respectivamente), & venderam bem (especialmente nashville skyline, empurrado pelo hit-single lay lady lay) ninguém ralhou muito. apenas alguns radicais que queriam de volta o ícone de protesto, herói da contracultura, que dylan havia se (ou sido) transformado.

os trabalhos seguintes, na mesma linha, não foram perdoados. até hoje são apresentados em biografias & resenhas como álbuns menores, de importância secundária. sem dúvida, são afirmações injustas. na verdade, são idiotices que foram se propagando com o tempo.

o country sempre esteve presente na vida & na carreira de dylan, desde sua infância & perpassando quase todos os seus discos. sobre os primeiros álbuns, deve ser dito que a fronteira entre o country & folk é bastante tênue, & os gêneros as vezes se misturam, andam juntos & geram peças híbridas. o country tem uma forma simples, variando sobre temas similares & sobre tradição, ainda que o gênero se estilhace numa enorme variedade de estilos. já o folk (o termo vem de folk+lore, conhecimento do povo, o “folclore”) é composto por canções que foram passando pelas gerações através da tradição oral. & ambos tem uma origem (e letras com temática) rural. assim, tanto o folk como o country (e seus vários sub-estilos) sempre estiveram incorporados na sonoridade de dylan, desde que ele se apaixonou por aquelas canções no rádio, em sua infância, & as foi conhecendo, pesquisando & tocando até que alcançasse o estrelato.

a influência country sempre esteve presente na obra de bob. desde o primeiro álbum. até na trilogia de 1965/66 isso é sentido. seja numa levada caipirosca, no dedão pesado em algumas canções acústicas, ou mesmo na guitarrinha country de faixas de bringing it all back home & até blonde on blonde. usar esse pretexto para achincalhar álbuns como john wesley harding, nashville skyline & os posteriores é uma enorme bobagem. o country sempre esteve & estará no som de dylan.

com o sucesso comercial de nashville skyline, bob voltou aquela cidade em seguida, no final de abril de 1969, com vários songbooks. informou ao seu produtor, bob johnston, que queria gravar um disco com músicas de outros artistas. começava a gestação de self portrait. um dos motivos que levou dylan a tomar essa decisão era o fato de que, em virtude de contratos anteriores, suas composições geravam rendas para albert grossman, manager com quem estava brigado. assim, gravando músicas de terceiros, bob negava a grossman a renda de publicação. Também, pesando nesse sentido, tinha o fato de que continuando a gravar em nashville, ele se via cercado por pessoas de uma tradição musical que amava. era o cenário & os estúdios de onde haviam saído johnny ka$h & uma série de outros heróis que dylan admirava, especialmente na adolescência. tanto é que usou, nas seções, vários músicos que já haviam gravado com elvis, como bob moore, delores edgin & millie kirkham.

as gravações foram um tanto irregulares, & após ter se mudado de woodstock, dylan rompeu com nashville. tratou de gravar o restante álbum no estúdio da kolumbia em nova york. o motivo nunca ficou claro, o fato é que o rompimento foi deveras brusco, & os músicos de nashville ficaram magoados, como charlie mccoy & kenny buttrey, especialmente por não serem avisados, & nem terem recebido ao menos uma cópia do disco, após o lançamento.

self portrait foi lançado em junho de 1970 & a crítica simplesmente destruiu com o álbum. composto pelas covers, algumas faixas ao vivo & até temas instrumentais (a faixa wigwam, que no brasil virou tema da tv record, dez anos depois), todos se decepcionaram por bob, o grande poeta, não ter apresentado uma quantidade maior de material inédito. especialmente pelo fato do disco ser duplo. greil marcus, o erudito do rock (autor de a última transmissão, lançado esse ano na coleção iê-iê-iê da konrad), escreveu uma crítica para a revista rolling stone que já iniciava perguntando “que merda é esta”. geralmente adulado pela mídia, pela primeira vez dylan era alvo de deboche & pancadas.

por mais suspeito que eu seja, não acredito que o disco mereça tamanho desprezo. não era a primeira vez que bob mudava a sua “direção” musical, & o flerte com o country estava entalado na garganta de muita gente. continuavam a se decepcionar porque o rockeiro ia explorando caminhos novos sem ligar para o que os outros esperavam. pela primeira vez, ele se valeu de “enfeites” como arranjos melosos de cordas, sopros & acompanhamentos vocais. o resultado foi diferente de tudo que o artista já havia produzido, mas não de todo mal. uma faixa que se encaixa totalmente nessa proposta nova, & que foi detonada na época, é a primeira do álbum: all the tired horses. exagero. não é uma música má. anos depois chegou a ser incluída na (excelente) trilha sonora do (puta) filme profissão de risco (com o gatinho do johnny depp). ainda, o álbum trazia covers de blue moon (sucesso na voz de elvis), the boxer (de simon & garfunkel) entre outras. nem a versão ao vivo na ilha de wight de like a rolling stone, countryzona, foi polpada. mas, ninguém nega que o disco tenha momentos fortes, marcantes, como its hurts me too (parecendo ser dedicada a uma amante com um filho) & gotta travel on, de paul clayton.

segundo al kooper, bob ficou chateado com a má recepção de self portrait, & assim tratou de trabalhar num novo disco imediatamente, com canções novas. dizem que por ciúmes pelo produtor bob johnston, & os músicos charlie daniels & ron cornelius estarem tocando na turnê de leonard cohen (outro grande poeta-rockeiro-judeu), dylan teria dispensado-os, & colocou kooper para produzir seu novo álbum. & assim, ainda em 1970, apenas três meses após self portrait, new morning foi lançado (pouco antes do lançamento já atrasado do livro de bob, tarantula).

a rolling stone até recebeu new morning de maneira mais calorosa. a resenha de ralph j. gleason tinha como título “dylan está de volta!”. mas a opinião geral era uma bobagem. não podendo cacetear as músicas, indiscutivelmente boas (e no mesmo estilo do de self portrait, só que com apenas temas de autoria do próprio cantor) afirmavam que bob havia se vendido. o álbum era realmente mais leve, mas ótimo. gleason escreveu que o escutara dez vezes & não tinha encontrado uma única faixa ruim. & é verdade. mas não podiam dar o braço a torcer, & estava sendo bonito transformar dylan novamente em judas.

muitas faixas eram ainda das sessões de self portrait. a ótima if not for you foi lançada naquele mesmo ano no inacreditável álbum triplo de george harrison, all things must pass. ele & bob eram muito próximos. & no futuro, a música seria um sucesso na voz de olivia newton-john. diziam que went to see the gypsy falava sobre um encontro com elvis presley, mas dylan nunca admitiu nada nesse sentido. if dogs run free vinha com um arranjo jazzístico. three angels era, na verdade, sobre uma decoração que bob viu numa igreja, & um crítico da época afirmou que a canção era sobre a humanidade. a faixa título & outras duas canções do álbum haviam sido compostas para uma peça de teatro de archibald macleish, mas não foram entregues a tempo. na época, a universidade de princeton deu ao rockeiro o título de doutor em música honoris causa. durante a cerimônia, uma nuvem de gafanhotos pouso sobre árvores em frente ao prédio, no campus, onde estava ocorrendo a solenidade. david crosby (ex-byrds & então membro do crosby stills nash & young) tinha acompanhado dylan & sara até cerimônio & disse terem fumado uma baseado fortíssimo. achou o som dos gafanhotos esquisito & alto & pensou que sua cabeça fosse explodir por causa dele. inspirado pelo comentário, bob compôs day of the locust.

new morning novamente fora castigado por que dylan não era mais um cantor “de protesto”. apesar disso, a crítica confirmou que as canções eram boas, sem saber que muitas eram das sessões do massacrado self portrait. & até 1973 nenhum outro álbum do artista foi lançado (apenas uma coletânea, “more greatest hits”, que até trazia algumas faixas inéditas). foi quando surgiu a oportunidade de bob compor a trilha sonora & atuar num faroeste de sam peckinpah (ele admirava o diretor, & de maneira especial a película meu ódio será tua herança). as filmagens foram um tanto caóticas (com o diretor bêbado todo o dia), mas a atuação do rockeiro, num papel coadjuvante, ficou boa. & a trilha foi composta fora dos moldes habituais. sem se preocupar com a duração & os cortes das cenas, dylan foi produzindo temas instrumentais. cercado por um grupo bastante eclético de músicos, que incluíam booker t. & roger mcguinn (o roger magrinho), o resultado impressionou bruce langhorne, que era acostumado a trabalhar com trilhas sonoras: “me dei conta de que não tinha a ver com fazer a trilha” diz ele “mas com captar a emoção do filme”. a trilha incidental evoca em alto grau o faroeste. & bob fora aclamado pelo trabalho. o engraçado mesmo é perceber que o disco acabou vendendo bem, uma vez que possui poucas faixas acabadas, & soe mais como uma miscelânea de temas instrumentais, incidentais & temáticos. mas o hit knockin’ on heaven’s door foi um tremendo sucesso (sendo regravada por eric clapton, os farofeiros ridículos do guns’n'roses, zé ramalho é uma penca de outros artistas). é apenas engraçado constatar que um disco de recortes de temas do filme tenha sido bem recebido, uma vez que trabalhos anteriores, bem montados & acabados, tenham sido caceteados sem perdão.

encerrando essa fase mais caipiresca, & injustamente apontada como fraca, existe um disco que foi lançado sem que a gravadora consultasse o artista. em 1973, seu contrato com a kolumbia expirou, & bob assinou com geffen, se mudou para a asylum (subsidiária da elektra, que depois se tornou o “e” da wea) & gravou dois discos incríveis com a the band (planet waves & o ao vivo convulsivo before the flood). mas antes desses lançamentos, & para concorrer com eles, a kolumbia lançou um disco de sobras de estúdio. composto por canções gravadas durante (e entre) self portrait & new morning, o lp, que fora batizado simplesmente de dylan, mal foi escutado. sua fama, por ser um amontoado de restos de discos considerados fracos, era o suficiente para consagrá-lo como o pior trabalho de toda a vasta discografia do rockeiro. novamente, não vou ficar arrolando razões em defesa de um álbum massacrado. digo apenas que, dentre todos esses títulos, desde o início da década de 1970, acho que aí está o meu favorito. um tiro curto (são apenas nove canções) & que até pode soar kitsch (não que eu me importe). mas lado “a” é irrepreensível. abre com lily of the west, seguida por i can’t help falling in love (elvis) antes de emendar a vibranta sarah jane, para fechar com uma canção tradicional, spanish is a loving tongue. o lado “b” também é muito legal, com direito até a big yellow taxi (da joni mitchell) & a fool such as i (outra de elvis).

por fim, concluo apostando em todos esses discos menosprezados. fatores históricos levaram ao seu obscurecimento, por um preconceito contra o country & uma vez mais por dylan ter optado por rotas distintas para sua carreira musical. um feito que decepcionou a crítica, & acabou marcando tais obras. entretanto, hoje, com um distanciamento que permite uma análise mais fria daquilo que realmente importa, que são os discos, eles parecem coerentes & consistentes. aprecie sem preconceitos, nem que seja para concluir que não passo de um dylanófilo cretino esperneando por bobagem.

por rodrigo de andrade (garras)

Nota, a foto acima, na qual o autor aparece deitado entre diversos discos ‘dylanescos’ é de autoria de Roberta Scheibe.

domingo, 4 de julho de 2010

O Álbum Branco de Dylan

Aqui vai mais um excelente texto sobre o ‘Great White Wonder’, famoso bootleg do Bob Dylan, já abordado aqui no Blog. Esse é da lavra de Marcelo Xavier, grande amigo e verdadeira ‘dylanpedia’.

Em fins de 1969, o New York Times largou essa nota:

O artigo era a respeito da considerável repercussão que um álbum lançado no mercado negro (um bootleg) norte-americano, contendo material inédito de Bob Dylan. O disco, intitulado Great White Wonder, cuja concepção (era branco e duplo) remete ao White Album, dos Beatles, havia sido destaque na Rolling Stone em junho do ano anterior, em outro artigo, Dylan's Basement Tape Should Be Released.

O disco caiu nas ruas e a notícia dá conta de que a gravadora do autor de Blowin' In The Wind, a Columbia, ia tomar todas as medidas necessárias, cabíveis e possíveis a fim de tirar aquele escandaloso disco das lojas.

A história é a seguinte: em 1967, no auge do Verão do Amor, Dylan foi morar no mato nos arredores de Nova Iorque. Pessoal da antiga banda de apoio dele, os Hawks, que tinha relação como empresário dele na época, o Albert Grossman, acabou indo também para lá, e armaram um Q.G. num casarão cor-de-rosa que entraria para a história do rock.

O porão da casa virou um estúdio improvisado. O bando ficou boa parte do verão e do outono gravando, compondo material novo &/ou fazendo covers de temas folk antigos, tudo gravado em rolo. Gravaram mais de cem músicas. Muita coisa os Hawks não sabiam se eram do Bob Dylan ou covers, mesmo. Mas era só clicar no Play/Rec e pagar para ver...

Dylan saiu de lá no fim de 67 para gravar seu próximo disco, o John Wesley Harding, um trabalho totalmente apsicodélico. O curioso é que, para isso, ele dispensou os Hawks e o que ele gravou, com um grupo de Nashville (como fizera com o Blonde On Blonde), não tinha nada a ver com aqueles demos do porão.

O resultado da brincadeira foram rolos e rolos de música. Parte do material inédito seria mandado para a editora musical dele e de Grosmann, a Dwarf. Esse mesmo material foi passado para acetato — e eis que o astuto Grosmann não se fez de rogado: mostoru as novas canções para outros artistas (alguns empresariados por ele), que se interessaram em levar para o disco.

Assim se deu: por exemplo, o Fairport Convention gravou Million Dollar Bash, Manfred Mann registrou Mighty Quinn; Peter, Paul And Mary gravou Tears Of Rage, os Byrds, por sua vez, fizeram a festa: gravaram You Ain't Goin' Nowhere; Nothing Was Delivered e Wheel's On Fire.

Os Hawks — agora já batizados como The Band — gravaram Tears Of Rage, Wheels On Fire. George Harrison, que era amigo do Dylan, ouviu esse material e mostrou para seus três amigos. Diz-se que a idéia das sessões do Get Back foram inspiradas pelas sessões de Woodstock. De forma descompromissada, inclusive, ele e o Paul gravaram respectivamente I Shall Be Released e Please Mrs. Henry, na Apple.

A questão era justamente tentar entender porque depois de um ano, as gravações não foram lançadas oficialmente pela Columbia, e por que elas se diseminaram como sífilis pelo meio musical de forma endêmica. Quando a Rolling Stone se perguntou por qual razão as fitas não tinham um destino lógico, parte delas saiu na famosa versão bootleg, o Great White Wonder.

O disco, concebido por algum colecionador norte-americano, em 69. Ele passa por três fases do compositor.

A primeira, é uma gravação caseira, de 1961, onde ele toca parte do seu repertório do começo da carreira, que se assemelha naturalmente com o seu primeiro álbum: Candy Man, Ramblin' 'Round, Black cross, Ain't Got No Home, Death of Emmett Till e duas que foram lançadas oficialmente, See That My Grave Is Kept Clean e Man of Constant Sorrow.

A segunda cobre já a fase "elétrica", com material inédito do Bringing All Back Home: If You Gotta Go, Go Now (Or Else You Got To Stay All Night) e Sitting On a Barbed Wire Fence.

A terceira finalmente traz a peça de resistência do Álbum Branco de Dylan: highlights dos tapes de Woodstock, antes registrado em acetato: I Shall Be Released, Open The Door, Homer, Too Much of Nothing (que Petr Paul And Mary gravaram), Nothing Was Delivered e a belíssima Tears of Rage — composto em parceria com Rick Danko e que se tornaria um clássico com a The Band.

Esse material passou a ser pirateado largamente nos anos seguintes, e o Great White ganharia uma segunda parte. Dylan decidiu regravar oficialmente algumas canções, como I Shall Be Released e You Ain't Going Anywhere, que saíram no Greatest Hits II, de 71.

Em 1975, a fim de tentar estancar a pirataria infrene, a Columbia remixou parte dos masters de 1967, regravando alguns instrumentos e incluindo coisas que não nasceram oficialmente em Woodstock, como Katie's Been Gone e Bessie Smith, que são da The Band/Hawks e lançaram o conhecido The Basement Tapes.

Detalhe é que, mesmo que objetivo e conciso, a versão oficial deixou muita coisa de fora. Um exemplo é Quinn The Eskimo, que só foi lançado pela CBS na coletânea Biograph, de 1985. E, a rigor, nenhuma versão do Great White Wonder é idêntica a do Basement Tapes. Outro: I Shall Be Released, cujo título é o mote do artigo da Rolling Stone, aparece no GWW mas não saiu no elepê duplo de 75.

E é claro e cristalino que, depois de quarenta anos, esse bootleg — considerado como um dos primeiros da história, junto com o Kum Back, dos Beatles e outros, possui apenas valor histórico: muito desse material viu a luz do dia no Bootleg Series 1961-1991.

Por Marcelo Xavier
highway61@bol.com.br
Originalmente publicado em Vitrola, Minha Vitrola
http://vitrolaminhavitrola.blogspot.com/2010/06/o-album-branco-de-dylan.html

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Bob Dylan clandestino


A incrível história do "álbum perdido" de Dylan, as lendas em torno dele e como The Great White Wonder inventou o mercado de discos piratas

Reportagem por Alexandre Matias (originalmente publicada na Revista Bizz e no site Trabalho Sujo)

"Consideramos o lançamento deste disco um abuso da integridade de um grande artista. Ao publicar material sem o conhecimento ou a aprovação de Bob Dylan ou da Columbia Records, os vendedores deste disco estão privando grosseiramente um grande artista da oportunidade de aperfeiçoar sua performance até onde ele crê em sua integridade e validade. Eles difamam o artista e fraudam seus admiradores ao mesmo tempo. Por estas razões, a Columbia, em conjunto com os advogados de Bob Dylan, seguirá todos os procedimentos legais para interromper a distribuição e a venda deste álbum."

Tarde demais. A nota divulgada pela gravadora de Dylan em setembro de 1969 sobre a existência de um disco chamado The Great White Wonder veio registrar, nos autos da própria indústria fonográfica, a existência de um registro sonoro inédito que começava a ganhar dimensões improváveis para o que deveria ser uma mera produção caseira. Vendido na casa dos milhares, o vinil duplo trazia dois momentos distintos de Dylan (doze canções gravadas em um hotel em 1961 e outras nove faixas de baixa qualidade acompanhado da mesma banda com quem excursionava, em 1967) e surgia imponente como aquilo que o editor da Rolling Stone, Jann Wenner, chamara de "o disco perdido de Bob Dylan", na capa da edição de 22 de junho de 1968. Na matéria, eram descritas treze canções que circulavam por meios alternativos, que comporiam um próximo álbum do contratado da Columbia Records. "O conceito de um disco coeso já está presente", escreveu, antes de clamar: "A fita do porão de Dylan precisa ser lançada."

"Havia uma enorme demanda por Dylan e ele não lançava nada", me explica Greil Marcus, uma das principais autoridades sobre o músico norte-americano. "Naquela época, um artista de seu porte não lançar nada por seis meses era algo improvável - que dizer do período de um ano e meio entre Blonde on Blonde (1966) e John Wesley Harding (1968). Neste sentido, os piratas preencheram a lacuna. Como aconteceu, haviam tantos lançamentos - sobras de estúdio, shows, músicas que nunca foram lançadas etc. - que constituem toda uma carreira à sombra - que Robert Polio recentemente construiu no livro Tin House".

Em menos de um ano, The Great White Wonder veio à tona; as primeiras cópias eram vendidas em Los Angeles e logo se replicaram pelo mundo. Mais do que compartilhar com o grande público gravações que já eram conhecidas dentro da metiê fonográfico, o LP é o primeiro passo em uma história que todo fã de música pop adora: o disco pirata. Uma história em que o próprio Bob Dylan é um de seus principais protagonistas.

Like a Rolling Stone

Volte no tempo cinco anos e encontre Bob Dylan no auge de sua carreira. Mais do que se enamorar pelo rock’n’roll, o antigo garoto-prodígio da cena folk e a então voz de sua geração viu na combinação barulhenta de country e rhythm’n’blues em instrumentos elétricos uma capacidade de comunicação mais instantânea e mais ampla do que o beco sem saída das ladainhas ao violão que andava metido. O rock se tornava a nova música popular, o novo som das ruas. Ele reconhecia a reverência que a geração da Invasão Britânica fazia aos grandes nomes do rádio norte-americano dos anos 50 – não à toa, batizou um disco de Bringing it All Back Home ("Trazendo Tudo de Volta pra Casa").

"Os Beatles estavam fazendo o que mais ninguém fazia", disse Dylan em 1971 a um de seus biógrafos, Anthony Scaduto. "Os acordes eram ultrajantes e suas harmonias vocais validavam tudo. Você só pode fazer isso com outros músicos. Foi quando comecei a pensar em trabalhar com outras pessoas. Todo mundo pensava que os Beatles eram pra adolescentes, que logo iam passar. Pra mim, eles tinham chegado pra ficar. Sabia que eles apontavam o rumo que a música devia seguir."

Desde o primeiro momento em que optou pelo rock, não havia meio-termo – tanto que sua "conversão" elétrica foi em alto e bom som no Newport Folk Festival. Dylan subiu no palco no dia 24 de junho de 1964 ao lado do tecladista Al Kooper e da Blues Band de Paul Butterfield, os mesmos músicos com quem, havia pouco mais de uma semana, gravara o hino "Like a Rolling Stone". O single chegou às paradas no mesmo dia em que Dylan encerraria o evento. Ele foi chamado ao palco com entusiasmo pelo cantor Pete Seeger, um dos organizadores, o mesmo que dali a pouco tentaria cortar o cabo de eletricidade com um machado quando a banda de Dylan começou a tocar "Maggie’s Farm".

Era guerra. Chamou os canadenses dos Hawks para ser sua banda e juntos cruzaram 1965 e 1966 na famosa turnê. Na primeira metade do show, Dylan tocava sozinho seu violão; na segunda parte, vinha com a banda e presenteava o público com uma descarga musical bruta e agressiva. A resposta vinha em forma de vaias.

O choque foi intenso para a banda, formada pelo guitarrista Robbie Robertson, o pianista Richard Manuel, o baixista Rick Danko, o organista Garth Hudson e o baterista Levon Helm – tanto que este pediu as contas em novembro de 65, pois não suportava mais ser vaiado. Acostumada a tocar em pequenos pardieiros, a banda era atirada às mais reputadas salas de espetáculo do mundo, do Hollywood Bowl ao Royal Albert Hall, secundando um dos principais artistas jovens da época, e ainda por cima para ser agredida pela platéia. Que, por sua vez, pagava para vaiar.

Se a banda estava chocada, o mesmo não parecia acontecer com Dylan. Desafiava o público, os fãs, os jornalistas e quem mais se colocasse entre ele sua nova música com um humor nonsense e aparente desprezo por todos. Seus discos haviam encontrado, no público de rock que aos poucos amadurecia, uma audiência maior que o conservadorismo folk. Mas aquilo parecia ter ampliado ainda mais seu papel de "voz de uma geração". A agressividade musical parecia atrair outro tipo de agressividade. Violência gera violência. As vaias eram substituídas por xingamentos e pesadas trocas de acusação entre o cantor e a platéia, numa onda cada vez mais crescente em que a própria vida de Dylan parecia correr risco. "Olha o que eles fizeram com o Kennedy em Dallas!", assustou-se o cantor folk Phil Ochs ao assistir ao confronto no estádio de Forest Hills, em Nova York.

Essa história é registrada magistralmente em dois dos mais importantes documentários da história do rock, Don’t Look Back do diretor D.A. Pennebaker, que acompanha o braço inglês da turnê de 1965 e foi crucial para difundir o novo Dylan para todo um planeta ainda não unificado pela TV via satélite, quando foi lançado em 1967; e No Direction Home, de Martin Scorsese, lançado em 2005.

Woodstock

Precisando descansar, Dylan comprou uma casa de campo em Woodstock, assim como seu empresário Albert Grossman, pouco antes de reiniciar a turnê americana, em 1966. Impressionados com a tranqüilidade pastoral da região, próxima de Nova York, os quatro canadenses dos Hawks (só Levon era norte-americano) mudaram-se para uma enorme casa rosa em West Saugerties, próximo à casa de Bob. Montaram seus instrumentos no apertado mas confortável porão de uma horrorosa casa rosa (a "Big Pink"), onde começaram a ensaiar com freqüência, muitas vezes acompanhados por Dylan.

Até que, no dia 30 de julho de 1966, as rádios dos Estados Unidos passaram a noticiar que Bob havia sofrido um acidente de motocicleta. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu e a gravidade do estado de Dylan após os freios de sua Tryumph 500 terem parado de funcionar perto de sua casa, quando foi acompanhar a mulher, Sara Lownds, que saía de carro, em uma volta pela região, no dia 29 de julho. Na época, falavam que ele estava entre a vida e a morte, que o acidente estava apenas encobrindo o fato de ter enlouquecido, que a CIA havia sabotado sua moto. Depois do acidente, Dylan se isolou: não recebia visitas, falava com os amigos por meio de um interfone e não saía mais de seu quarto.

Quando começou a fazê-lo, encontrou sua banda em outro plano. Sem bateria, tocavam mais devagar e mais baixo, sem perder a pegada rock. A atmosfera do porão dava uma estranha vida ao local e som ecoava por mais tempo, como uma velha transmissão de radio. O lugar combinava com o som que lembrava em sua reclusão, som de infância, entre o blues e a música folk, de artistas anônimos e trovadores atordoados. À medida em que se recuperava, voltou a tocar com a banda, que não tinha mais nome. Eram apenas "The Band".

Puseram o gravador para funcionar e em abril de 1967 começaram os históricos registros. Poucos instrumentos, tocados informalmente, entre tentativas e risadas, eram o centro dessa viagem ao passado em que nem Dylan nem a Band, podiam saber, conjurou espíritos de diferentes eras do som gravado nos EUA. Os cinco se tornavam um conjunto vocal, a princípio parodiando cantores antigos com vozes cômicas que, pouco a pouco, ganhavam um novo significado. Compunham músicas com se estivessem apenas tentando lembrar delas, numa jam session espiritual de retorno à infância de suas musicalidades. Ao comparar o som do porão ao de um laboratório, o Greil Marcus ouviu algo bem diferente de Robbie Robertson: "Não", disse o guitarrista no livro Invisible Republic. "Aquilo era uma conspiração. Era como as fitas de Watergate. Pra muitas coisas, Bob dizia ‘devíamos destruir isso!’."

Quatorze dessas faixas foram transformadas em discos de acetato por Albert Grossman. Dylan não tinha a intenção de lançar aquelas gravações, mas aproveitou para oferece-las a outros intérpretes. "Quinn the Eskimo" foi para Manfred Mann; "You Ain’t Goin’ Nowhere" para os Byrds; "This Wheel’s on Fire" caiu com Julie Driscoll, Brian Auger & the Trinity; "Too Much of Nothing" ficou com Peter, Paul & Mary. Cada artista que registrava algo daquele misterioso material dava dimensões ainda maiores às versões originais, como se elas encobrissem algum segredo.

O segredo, na verdade, eram as próprias fitas – já então apelidadas com seu nome clássico de "basement tapes" ("fitas do porão"). Dylan, aos poucos, voltava à carreira via country (o disco John Wesley Harding, gravado em Nashville, e na aparição no show em tributo a Woody Guthrie no Carniege Hall, em janeiro de 1968). Ao mesmo tempo, cópias daquele acetato circulavam entre artistas, jornalistas, fãs e empresários, revelando a música que Bob Dylan vinha fazendo quando virou as costas para o Verão do Amor. Reuniu-se com os amigos e voltou para o passado, num clima de convivência mais honesto e intenso que o sexo desesperado do amor livre, a piração ablué das drogas psicodélicas ou o ruído estridente do rock'n'roll. Eram apenas amigos fazendo música. Folk, direitos civis, psicodelia – estava cansado de pegar carona na onda dos outros.

Com as "fitas do porão", era a vez dos outros seguirem sua onda. E foi assim que os Rolling Stones saíram do abismo paz e amor onde nunca deveriam ter ido, exilados uma chácara no interior de São Paulo, no Brasil, para compor seu disco mais "raiz", Beggar’s Banquet, ouvindo as basement tapes sem parar. Nos Beatles, foi George Harrison quem deu a dica de Dylan e fez Paul McCartney bolar o conceito do disco Get Back, em que o grupo voltaria a descobrir o prazer de estar junto tocando músicas velhas – um projeto que deu errado, acelerou o fim da banda, e culminou nos disco e filme de mesmo nome, Let it Be. A música country era reavaliada e tinha sua importância ressarcida. Woodstock tornou-se o palco para o megafestival e sinônimo de todo aquele sentimento. Uma saída melancólica mas digna para a autodestrutiva psicodelia, já em rota de colisão, as basement tapes foram uma espécie de amuleto para a passagem dos anos 60 para os 70.

The Basement Tapes

Daí que em 1969 veio The Great White Wonder, dali a pouco Troubled Troubador, Waters of Oblivion e vários outros discos piratas, que ampliavam ainda mais o número de músicas do porão – das 14 originais foram para 23 em 1975, o ano em que a Columbia oficializar o disco, com todas as faixas (24! Uma única faixa desconhecida dos fãs, "Goin’ to Acapulco", indicava que ainda havia mais a se descobrir) num mesmo volume. Mas a gravadora não gostou do som das fitas e fez a Band regravar algumas partes, descaracterizando-as. Oficializado, The Basement Tapes chegou aos dez discos mais vendidos na semana de seu lançamento: "Eu pensava que todo mundo já tivesse essas músicas!", disse Dylan, surpreso.

Contudo, duas novas coletâneas piratas Blind Boy Grundy & the Hawks volumes 1 e 2 (o título vem dos nomes que Dylan e a Band usavam antes de serem conhecidos), só com faixas inéditas foram lançadas logo após o disco da Columbia, ampliando ainda as basement tapes. No livro Bootleg: The Secret History of Rock and Roll, o escritor Clinton Heylin localiza a origem deste segundo lote quando um amigo de Robbie Robertson deu uma série de fitas a uma loja no noroeste americano. Um terceiro lote de fitas seria encontrado e todas as gravações conhecidas das basement tapes seriam compiladas numa caixa de cinco CDs de 1990 – que melhoraram edição após edição até chegar ao box A Tree With Roots, de 2001.

A quantidade de artigos da pirataria Dylan o torna o artista mais lançado extra-oficialmente do mundo – até mais que os Beatles, pois eles terminaram em 1970. Só a existência de Jewels and Binoculars, uma única caixa com 26 CDs dedicadas a seus shows em um ano (1966, da gravadora Vigotone) já deveria servir como prova disso. Ele também contribui, produzindo mais do que pode lançar, trocando versões matadoras por faixas fracas em cima da hora, refazendo discos sem pestanejar. Tanto que começou a desovar este material em coletâneas oficias, como na Biography, em que comenta sobre a pirataria no encarte: "Eles tem coisas que se faz em uma cabine telefônica. Quando não tem ninguém por perto. Você num motel, sozinho, não conhece ninguém e... É como se o telefone estivesse grampeado... Aí aparece num disco pirata. Com uma foto de você que foi tirada debaixo da sua cama e com um título meio strip-tease, custando 30 contos. E depois você pergunta porque tantos artistas são paranóicos."

Dylan entrou pra valer no jogo quando lançou sua série pirata, em 1991. A princípio, uma caixa com três CDs cheios de relíquias para maníacos e faixas incríveis para o público em geral, as Bootleg Series já estão em seu sétimo volume (a trilha sonora de No Direction Home) e nem sinal das basement tapes oficializadas mesmo – na íntegra, sem retoques, sem remasterização moderna. Como o documentário de Scorsese termina no misterioso acidente de moto, já especula-se sobre um segundo filme, que nos levaria às profundezas do mítico porão.
"Dylan, mais do que muitas figuras públicas viveu numa nuvem de desinformação e mito, boa parte deliberadamente criada ou encorajada por ele para aumentar sua própria imagem", me disse Howard Sounes, outro biógrafo do músico. Marcus conclui: "Eu não tenho a menor idéia do que Dylan acha disso tudo. Contudo, não fui o único a notar que seu disco de 1970, Self Portrait (Auto-retrato), era um apanhado de faixas ao vivo, sobras, versões de segunda categoria e peças inacabadas, muito parecido com o disco que o precedeu, The Great White Wonder.