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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Está tudo lá!


Acabo de rever, sei lá por quantas vezes, o filme ‘I’m Not There’ (Não Estou Lá, EUA, 2007), cinebiografia poética e surrealista de Bob Dylan, dirigida por Todd Haynes, que utilizou nada menos que 6 atores para interpretar as deferentes fases e aspectos da vida do músico.

Fazia tempo, muito tempo, que não colocava o filme pra rodar e é absolutamente incrível como a cada vez que revisito a película, mais a acho genial! Está tudo lá! A punjança, a beleza, a ira, a melancolia, as idas e vindas da vida e carreira do cantor/compositor/poeta/profeta/artista mambembe ou seja lá como for que você queira rotular o sujeito que, de repente, resolveu atender pelo nome de Bob Dylan. São inúmeras as referências, as citações, os saltos temporais e um misto de realidade crua e fantasia.

O pretexto da vez era procurar uma citação pra uma amiga, sempre uma desculpa pra dar ‘play’, novamente, no disquinho... Algumas cenas são de uma sutileza ímpar, daquelas em que parece ser possível sentir as lufadas de vento entrando pelas janelas.

O filme é quase um delírio do diretor norte-americano, no fundo, um fã confesso de Bob Dylan. A cinebiografia é bastante curiosa pela maneira como a história é contada. Como fosse uma poesia moderna, que foge à métrica tradicional, mas que encanta justamente por isso. É exatamente aí que está o talento do diretor, em transpor para as telas a genialidade do biografado, um artista que enveredou por diversos caminhos e, quando foi seguido, mudou de direção, sempre mantendo o único propósito, tradurzir-se em suas canções...
O elenco do filme é bárbaro e, como já citei acima, Haynes dividiu as diversas ‘personas’ do velho bardo, em diferentes personagens e o melhor de tudo, conseguiu que todos os atores ficassem bem à vontade, de fato encarnando os seus papéis. Seja o Dylan jovem/criança, interpretado por Marcus Carl Franklin, ou o Dylan dos primeiros anos e depois o cristão convertido, interpretados por Christian Bale. Seja o super-astro encarnado por Heath Ledger, ou o Dylan elétrico, papel que, surpreendentemente foi desempenhado por uma mulher, Cate Blanchett. Seja o poeta Dylan/Rimbaud interpretado por Ben Whishaw, ou ainda o fora-da-lei Billy The Kid, interpretado por Richard Gere. 

Épico, dramático, intimista, western, road movie. O filme se transforma na medida em que cada um dos personagens se sucedem. Outro ponto alto é a fotografia, muitíssimo bem trabalhada. Ora em preto e branco, ora num colorido no qual vários tons de amarelo se sobressaem. 

Obviamente que aqueles que não são familiarizados, que não conhecem de perto a vida e a obra do biografado, podem não entender todo o alcance do que vêem na tela e se sentirem um pouco “por fora” do contexto. Mas para os fãs e simpatizantes do bardo, posso garantir, é altamente recomendado.
Experimente ler uma das biografias de Bob Dylan disponíveis no mercado, ou ainda assistir o documentário ‘No Direction Home’, dirigido por Martin Scorsese, e depois encarar ‘I’m Not There’. É uma viagem, uma experiência incrível, uma baita iniciação ao universo dylanesco! 

Mesmo as passagens mais complicadas, como p. ex., as cenas do personagem ‘Billy The Kid’, passarão a fazer todo sentido e o expectador poderá facilmente entrar no clima criado por Haynes.

See you later, Allen Ginsberg!

terça-feira, 18 de março de 2008

Não Estou Lá - I´m Not There


Nesta sexta-feira, 21/03, finalmente estréia no Brasil o filme “I´m Not There”, do talentoso diretor da nova geração do cinema americano, Todd Haynes. O filme, muito além de uma cinebiografia, é uma representação livre do universo de Bob Dylan e suas diversas facetas: jovem poeta, ícone do movimento folk, roqueiro rebelde, cristão convertido, caubói solitário e, sobretudo, porta-voz de toda uma geração. Um artista cujas revoluções musicais e estéticas foram um espelho das transformações no mundo ao longo de todos esses anos. Ao longo do filme, Haynes procura evitar reduzir Dylan a um tipo facilmente definível e dá uma idéia da dificuldade de classificar o mito. Para tanto, ousa fazer com que seis atores interpretem as diversas fases e aspectos diferentes da vida do artista: Christian Bale, Cate Blanchett, Marcus Carl Franklin, Richard Gere, Heath Ledger (falecido recentemente) e Ben Wishaw são todos Bob Dylan, ou alter-egos de Bob Dylan... Para alguns críticos, tudo não passa de um delírio do diretor, mas a maioria recebeu bem o filme, nas pré-estréias e festivais espalhados pelo planeta, como um retrato poético e surreal do maior compositor popular de todos os tempos, uma visão completa e multifacetada do mito. É bem verdade que os atores ajudam muito. Eles vivem personagens com nomes diferentes, que fazem referência às diversas influências e passagens da vida do biografado, porém fica muito evidente que representam fases ou facetas de um mesmo homem. Todos em atuações acima da média, encarnam o homem, a criança, o poeta, o cantor, o rebelde... Todos num único sujeito, num artista que se reinventa e que tudo o que quis, foi tradurzir-se em suas próprias canções... Nesse aspecto, o filme atende perfeitamente ao propósito. Bob Dylan é um artista em constante transformação, mas ao mesmo tempo, um homem coerente com certos princípios básicos. I´m Not There é de uma poesia moderna, que foge à métrica tradicional, mas que encanta justamente por isso. Genial a maneira que Todd Haynes nos mostra a vida, as músicas, a obra de Bob Dylan. O próprio título do filme ajuda nesse contexto. “Não estou lá”. É como se o próprio Dylan nos dissesse: -“É assim que vocês me vêem, mas eu não estou ali, parado, imóvel. Estou em constante movimento, estou por aí, em transformação, sou múltiplos de mim mesmo...” Haynes não procura simplesmente captar as metamorfoses de Dylan. Ele vai além. Para cada faceta do músico, há um estilo diferente. É como se fossem episódios de um mesmo filme, mas incrivelmente, embora as partes sejam dissonantes entre si, a harmonia do todo resta preservada. A fotografia inclusive, é um dos pontos altos do filme. Ora em preto e branco, ora num colorido onde sobressaem vários tons de amarelo. É bem verdade que o filme irá agradar principalmente aos fãs de Bob Dylan. Para quem nunca leu nada a respeito da trajetória do músico, o filme pode parecer um pouco confuso. Mesmo assim, vale a pena assisti-lo. É um projeto ambicioso, desafiador, mas atores e diretor conseguem suplantar todos os obstáculos, buscando uma maneira criativa de não aprisionar o biografado. “I´m Not There” é um filme arrebatador, que não se encerra num nicho fechado. Um filme, assim como o artista em tela, múltiplo e singular!