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terça-feira, 24 de maio de 2011

O Mentiroso

Por Marcelo Xavier


Eis o homem! Tem aquela famosa cena no meio do show do Royal Albert Hall em 1966 (que na verdade não é no Albert Hall) onde um sujeito na platéia - escandalizado pela barulheira neurótica que Bob Dylan (que faz hoje 70 anos (de idade) transformara a sua apresentação, colocando uma banda de rock no último volume tocando blues pesado depois de um set acústico - sobe na cadeira e chama o menestrel das esquerdas de "Judas". Ao passo que o compositor, enquanto procura o gozador na platéia, responde: "eu não acredito em você. Você é um mentiroso".

Pois a verdade é essa: você é que é o mentiroso, caro sr. Bob Dylan. Mentiroso e oportunista. Você fez todo mundo de bobos. Seu método foi simples. Você viu que a onda do rock tinha passado junto com a cultura dos anos 50 como um juiz nos seus últimos anos de magistratura. Não foi isso o que você falou no Crônicas, seu picareta??

Você é apenas um rábula que vivia rondando universidades até que descobriu que uma garotada que vivia em Nova Iorque havia redescoberto aquele pessoal de esquerda dos Weavers, que todo mundo agora estava curtindo Paul Anka e você não tinha voz nem físico nem carisma para ser um Pat Boone, leu sobre os vagabundos da América beat e virou uma versão moderna deles.

Então você deve ter pensado MAQUIAVELICAMENTE da seguinte maneira: todo mundo acha que esses rapsodos estilo Woody Guthrie são uns sujeitos que fazem puro proselitismo em letras de um engajamento político de algibeira. Já que todos pensam que esses folk singers não passam de um bando de simplórios que acham que vão matar fascistas com um violão rachado E PREGAR UMA PEÇA NOS FARISEUS.

A fórmula era simples: aproveitar a onda da boemia bem vestida do Village que, depois do ressurgimento da onda folk em Newport (ali por 1960) e do recrudescimento de movimentos pelos Direitos Civis, e entrar nessa nova onda.


"Vou virar um folk singer de 18 anos fazendo cara de cachorrinho abandonado, usando botas de guarda-freios embarradas, um boné, uma gaita, vou ouvir todos os discos possíveis de blues, de folk, vou copiar o Dave Van Ronk, Charlie Patton e todo aquele pessoal do Anthology of American Folk Music, vou aprender dedilhados e acordes de blues, vou aprender harmonica, vou ver Genet, Balzac, Gogol, Victor Hugo, o Metamorfoses do Ovídio, a autobiografia Davy Crockett, roubar discos dos meus amigos, procurar Clausewitz, Faulkner, Poe, Longfellow e entrar em todas essas transas literárias e não ter nenhuma pose de intelectual. Vou ser um intelectual sem biblioteca. Vão me perguntar de onde eu aprendi a toca violão e vou dizer que foi através de um sujeito de pés de casco de bode na auto-estrada 61".

Bob Dylan, esse mentiroso. O plano dele é simples, e todos caíram. ele sabia que a cultura imediata do seu tempo estava com os dias contados, o grande golpe era aproveitar que o folk estava na mesma transa dos movimentos de esquerda. E pensou: "Vou ser o queridinho deles". Assim, Bob Dylan, na meca das editoras musicais, começou a fazer barulho e marquetear a sua imagem de Werther com um violão no colo e carinha de menor abandonado. Pegou todo repertório possível de blues e folk e estudou todas as possibilidades de arquivar aquilo, graças à sua memória de elefante.

E foi simples: Dylan pegava cançonetas tradicionais obscuríssimas, como No Auction Block, fazia uma paráfrase marota, escrevia algo ordinário e que todos queriam ouvir, como "quantos caminhos um homem precisa trilhar para tornar-se um homem?".

Foi assim que o sr. Zimermann inventou essa mentira, chamada Bob Dylan. Ele plagiava dezenas de temas folk, escrevia letras de protesto inteligentíssimas e que convergiam para todo o movimento de massas que crescia nos Estados Unidos do começo dos anos 60. Só precisava chamar a atenção de algum produtor de discos, arranjar um empresário (de preferência, inescrupuloso) e dar visibilidade àquele fait-divers peripatético do menino menor abandonado e frágil que, de repente abre a voz fanhosa e canta versos intermináveis denunciando injustiças sociais, políticas beligerantes pró-intervenção ianque no Extremo Oriente, assassinatos covardes de líderes sociais e empregadas domésticas, crônicas de desvalidos e sem culotes da vida afora.

Agora basta enlatar e vender para as massas. Dylan ainda caiu nas graças de um certo Albert Grosmann, que juntou a sua inescrupulosidade (?) com e dele (Grosmann tinha uma transa com o pessoal de Newport e com as editoras do Tim Pan Alley e, do Café Wha! para as prateleiras de discos e programas de tevê era um pequeno passo) e, desse conúbio, Dylan inventou a sua reputação. De uma hora para outra, a juventude americana não queria mais Frankie Avalon, Pat Boone, Neil Sedaka e essa estirpe de cantores fabricados para bobbysockers.


Bob Dylan acabou com eles. e paulatinamente ia acabar com o mercado dos cantores-intérpretes: a partir dali, o mercado queria consumir apenas cantores-compositores. Enfim: o crápula Dylan pôr o mercado fonográfico americano em xeque (a soldo de Havana ou Moscou, diziam) e a moda agora era ser fanhoso e talentoso, ou seja, um ultraje à moral e aos bons costumes.

Como se não bastasse, Bob Dylan não parou de mentir. Do nada, viu que a moda agora eram conjuntos musicais eletrificados fazendo música ligeira, como os Beatles. Mesmo que ele não gostasse, ele fez como fez com Patton, Guthrie, Henry Thomas e todos aqueles folk-singers castiços do tempo do gramofone. Resolveu forjar, da maneira mais abjeta e oportunista, a sua própria versão de uma banda de rock.

Foi quando ele cometeu o acinte de abandonar as jornadas de esquerda e escrever letras surrealistas e sem sentido nenhum, com versos ridículos como "o sol não é amarelo, é galinha", para provocar tanto quem caiu no seu conto do vigário quanto quem não gostava dele.

Sabem aquela querela em Newport, em 1965, quando ele trocou o violão pela guitarra? Ele morre dizendo que não, mas aquilo foi uma manobra WTF prá mandar todos aqueles ingênuos úteis às favas. Mandou o velho Pete Seeger pegar o seu avoengo e ingênuo We Shall Overcome e ver se ele está na esquina da 4th Street com um macaquinho e seu realejo e todos aqueles sombrios perdedores mortos-vivos da fila da Desolação. ele sabe que ninguém vai matar fascistas cantando isso. A verdade é essa: o Mr Jones eram eles, e eram vocês, que achavam que estavam tão certos do que sabiam e de toda a mensagem e estavam todos por fora.

Vocês não sabem nada, ficam citando livros e não aprenderam nada, todos são Judas. Dylan não é um Judas, Dylan é um personagem convencendo a VOCÊS a veracidade das mentiras dele, como diria o Paul Klee: os traidores são vocês, que não têm o que fazer. Vocês estão errados, vocês acreditaram num embuste, numa falcatrua. Não adianta reclamar com ele, reclamem com o SAC. Ele é um produto de consumo como tudo nesse mundo debaixo do sol.


Pior: depois de forjar aquele acidente de moto, ele voltou, anos depois, e gravou um disco imitando todos aqueles rednecks quadradões de Nashville enquanto gente como o Johnny Cash, o Waylon Jennings e o Willie Nelson quebravam lanças numa guerra cruenta contra o Nashville Sound, e Dylan resolveu adotar a pose de conservador e pai de família, com musiquinhas do tipo: "deita na minha cama, sua linda". Olha o naipe da parada. Menestrel das Esquerdas pai de família, pintando quadros e querendo dar tiros nos fãs chatos em Woodstock. Menestrel das Esquerdas. E a conta bancária? Vai bem?

Dylan: I don't believe you. You're a liar. Parabéns, seu mentiroso!

Texto originalmente publicado no Blog 'Pato Macho'.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

The Witmark Demos


Mais um texto da lavra do amigo Marcelo Xavier, profundo conhecedor da obra e carreira do Bob Dylan:

O público americano é como a Bela Adormecida: está dormindo profundamente, esperando ser beijado e despertado pelo príncipe da música folk. Quem proferiu essa frase foi Albert Grosmann, então apenas um jovem promotor de shows em Chicago, meio-oeste dos Estados Unidos. Ele estava no negócio do folk desde 1956, quando fundou o Gate Of Horn, em Chicago, descobrindo Odetta, Roger McGuinn e Bob Gibson. Quando Al conheceu George Wein, no fim dos anos 50, ele teve a brilhante idéia de se mudar estrategicamente para Nova Iorque, o paraíso das editoras musicais, e transformar o recém criado Festival de Jazz de Newport numa histérica e ululante meca do velho gênero entronizado por Woody Guthrie e os Weavers.

Em poucos anos, Newport seria oponto de encontro da velha e a nova geração, e base de lançamento de jovens artistas folk, como Joan Baez, Phil Ochs, os Clancy Brothers, entre outros. Grossman, naturalmente, tratou de criar uma editora para si, e de se oferecer como empresário de vários deles, como Gordon Lightfoot, Odetta, Pozo Seco Singers e, é claro, um trio que foi cria sua Peter; Paul and Mary.

Em fins de 1962, no mesmo ano em que o grupo lançava seu primeiro disco, Grossman descobriu um rapaz que tocava no Gerde’s Folk City, no Village, mas que, no entanto, já havia sido descoberto e que estava sob a tutela de John Hammond, quase em estúdio, pronto para lançar o seu primeiro disco.

O garoto cantava material folclórico do tempo de Henry Thomas e imitava os talkin’ blues de Pete Segger, conseguindo ser tão convincente quanto o autor da langorosa “Where All The Flowers Gone”, com a diferença que o fedelho mal contava vinte anos. Um cofre caiu na cabeça de Grossman: ele havia achado o “seu” príncipe encantado aquele que Seeger chamou de “mais prolífico compositor de nossa era”.


O homem não cessaria enquanto não conseguisse pôr as mãos naquele moleque que era compositor e cantor ao mesmo tempo. Só que ele teve uma idéia brilhante: iria registrar boa parte das composições numa editora. Grossman faturaria em cima dele tanto pelo registro original da maioria das músicas enquanto poderia faturar o dobro fazendo seus outros músicos realizarem covers.

Al persuadira seu novo contratado a transferir os seus direitos autorais de suas músicas de sua editora original, a Dutchess Music para a Witmark, uma espécie de subsidiária da Warner (é importante lembrar que Peter; Paul and Mary, moldados pelos escrúpulos de Grossman, eram justamente artistas da Warner).

Enfim, era um negócio promissor, principalmente num tempo em que o negócio da fábrica de compositores em Tin Pan Alley ainda estava no auge e a música folk havia ganho maior visibilidade a partir do fim dos anos 50. .

O problema é que o acordo secreto com a Witmark dava exatamente um faturamento de 50% de honorários por cada compositor que ele trouxesse para a editora. Dylan desconhecia esse acordo, e isso, com efeito, lhe geraria uma dor de cabeça que perduraria por anos entre Bob e Grossman.

Os registros são ligeiramente informais, gravados em rolo, mas não diferem muito da produção típica do Bob Dylan do começo da careira e a maioria do seu trabalho em disco na época podia ser produzido e editado em poucas horas (o Another Side, por exemplo, foi consumido em uma noite e algumas garrafas de Boulanger).


De certa forma, esses demos compreendem uma parcela considerável do reportório obscuro de Dylan, inclusive boa parte do material composto para os álbuns The Times They Are A-Changin e o The Freewheelin' Bob Dylan. Muitas dessas canções são pouco conhecidas ou completamente obscuras: "Sally Gal", "The Death of Emmett Till", "Rambling, Gambling Willie", e "Talkin' John Birch Paranoid Blues", "Kingsport Town" e "Whatcha Gonna Do", entre outras conhecidas, como "A Hard Rain's a-Gonna Fall" ou "Oxford Town".

Na verdade, os Witmark Demos, em parte (quarenta e sete músicas, no total), compreendem o período prolífico da gestação do The Freewheelin', esse talvez uma exceção na carreira de Dylan, já que seu segundo elepê levou quase um ano para ser lançado: a primeira sessão ocorreu ainda em Julho de 1962, quatro meses após o primeiro disco, com uma turnê pelo Europa durante a produção.

Ocorre que, nesse meio tempo, ele continuava a compor, e muito do material já editado foi sacado fora em favor de novas canções, como "Girl from the North Country", "Masters of War", "Talkin' World War III Blues", "Bob Dylan's Dream", e que seriam posteriormente incluídos no álbum. Alguns temas, como a controversa “Talkin' John Birch Paranoid Blues" (mais conhecida por conta da controvérsia), foram rejeitados por pressão da própria Columbia, depois que Bob Dylan foi orientado a não cantá-la no politicamente correto Ed Sullivan Show.

Como essas demos não eram registros formais - gravados de forma peculiar, ao sabor do improviso, ou seja, fora da CBS – muitas das suas canções mais conhecidas por causar estranheza pelo fato de que Dylan não utiliza harmônica. Uma curiosidade é ouvi-lo cantando Tomorrow Is A Long Time”, diferente da versão ao vivo do Greatest Hits 2.Outra é “Death Of Emmett Till”, que tem os mesmos acordes de House Of Rising Sun e que, talvez por conta disso, ficou de fora.

por Marcelo Xavier