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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

The Witmark Demos


Mais um texto da lavra do amigo Marcelo Xavier, profundo conhecedor da obra e carreira do Bob Dylan:

O público americano é como a Bela Adormecida: está dormindo profundamente, esperando ser beijado e despertado pelo príncipe da música folk. Quem proferiu essa frase foi Albert Grosmann, então apenas um jovem promotor de shows em Chicago, meio-oeste dos Estados Unidos. Ele estava no negócio do folk desde 1956, quando fundou o Gate Of Horn, em Chicago, descobrindo Odetta, Roger McGuinn e Bob Gibson. Quando Al conheceu George Wein, no fim dos anos 50, ele teve a brilhante idéia de se mudar estrategicamente para Nova Iorque, o paraíso das editoras musicais, e transformar o recém criado Festival de Jazz de Newport numa histérica e ululante meca do velho gênero entronizado por Woody Guthrie e os Weavers.

Em poucos anos, Newport seria oponto de encontro da velha e a nova geração, e base de lançamento de jovens artistas folk, como Joan Baez, Phil Ochs, os Clancy Brothers, entre outros. Grossman, naturalmente, tratou de criar uma editora para si, e de se oferecer como empresário de vários deles, como Gordon Lightfoot, Odetta, Pozo Seco Singers e, é claro, um trio que foi cria sua Peter; Paul and Mary.

Em fins de 1962, no mesmo ano em que o grupo lançava seu primeiro disco, Grossman descobriu um rapaz que tocava no Gerde’s Folk City, no Village, mas que, no entanto, já havia sido descoberto e que estava sob a tutela de John Hammond, quase em estúdio, pronto para lançar o seu primeiro disco.

O garoto cantava material folclórico do tempo de Henry Thomas e imitava os talkin’ blues de Pete Segger, conseguindo ser tão convincente quanto o autor da langorosa “Where All The Flowers Gone”, com a diferença que o fedelho mal contava vinte anos. Um cofre caiu na cabeça de Grossman: ele havia achado o “seu” príncipe encantado aquele que Seeger chamou de “mais prolífico compositor de nossa era”.


O homem não cessaria enquanto não conseguisse pôr as mãos naquele moleque que era compositor e cantor ao mesmo tempo. Só que ele teve uma idéia brilhante: iria registrar boa parte das composições numa editora. Grossman faturaria em cima dele tanto pelo registro original da maioria das músicas enquanto poderia faturar o dobro fazendo seus outros músicos realizarem covers.

Al persuadira seu novo contratado a transferir os seus direitos autorais de suas músicas de sua editora original, a Dutchess Music para a Witmark, uma espécie de subsidiária da Warner (é importante lembrar que Peter; Paul and Mary, moldados pelos escrúpulos de Grossman, eram justamente artistas da Warner).

Enfim, era um negócio promissor, principalmente num tempo em que o negócio da fábrica de compositores em Tin Pan Alley ainda estava no auge e a música folk havia ganho maior visibilidade a partir do fim dos anos 50. .

O problema é que o acordo secreto com a Witmark dava exatamente um faturamento de 50% de honorários por cada compositor que ele trouxesse para a editora. Dylan desconhecia esse acordo, e isso, com efeito, lhe geraria uma dor de cabeça que perduraria por anos entre Bob e Grossman.

Os registros são ligeiramente informais, gravados em rolo, mas não diferem muito da produção típica do Bob Dylan do começo da careira e a maioria do seu trabalho em disco na época podia ser produzido e editado em poucas horas (o Another Side, por exemplo, foi consumido em uma noite e algumas garrafas de Boulanger).


De certa forma, esses demos compreendem uma parcela considerável do reportório obscuro de Dylan, inclusive boa parte do material composto para os álbuns The Times They Are A-Changin e o The Freewheelin' Bob Dylan. Muitas dessas canções são pouco conhecidas ou completamente obscuras: "Sally Gal", "The Death of Emmett Till", "Rambling, Gambling Willie", e "Talkin' John Birch Paranoid Blues", "Kingsport Town" e "Whatcha Gonna Do", entre outras conhecidas, como "A Hard Rain's a-Gonna Fall" ou "Oxford Town".

Na verdade, os Witmark Demos, em parte (quarenta e sete músicas, no total), compreendem o período prolífico da gestação do The Freewheelin', esse talvez uma exceção na carreira de Dylan, já que seu segundo elepê levou quase um ano para ser lançado: a primeira sessão ocorreu ainda em Julho de 1962, quatro meses após o primeiro disco, com uma turnê pelo Europa durante a produção.

Ocorre que, nesse meio tempo, ele continuava a compor, e muito do material já editado foi sacado fora em favor de novas canções, como "Girl from the North Country", "Masters of War", "Talkin' World War III Blues", "Bob Dylan's Dream", e que seriam posteriormente incluídos no álbum. Alguns temas, como a controversa “Talkin' John Birch Paranoid Blues" (mais conhecida por conta da controvérsia), foram rejeitados por pressão da própria Columbia, depois que Bob Dylan foi orientado a não cantá-la no politicamente correto Ed Sullivan Show.

Como essas demos não eram registros formais - gravados de forma peculiar, ao sabor do improviso, ou seja, fora da CBS – muitas das suas canções mais conhecidas por causar estranheza pelo fato de que Dylan não utiliza harmônica. Uma curiosidade é ouvi-lo cantando Tomorrow Is A Long Time”, diferente da versão ao vivo do Greatest Hits 2.Outra é “Death Of Emmett Till”, que tem os mesmos acordes de House Of Rising Sun e que, talvez por conta disso, ficou de fora.

por Marcelo Xavier

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Direto do forno!

Tem novidades ‘dylanescas’ no forno. Segundo a Newsletter do site oficial do Bob Dylan, a Sony/Columbia prepara dois grandes lançamentos, previstos para chegarem às lojas (pelo menos nos EUA e na Europa), no dia 19 de outubro de 2010. O primeiro deles é ‘The Bootleg Series Volume 9 – The Witmark Demos’, nada mais, nada menos que 47 canções gravadas entre 19612e 1964, em suas próprias editoras de música, Leeds Music e M. Witmark & Sons, apenas com Bob Dylan e seu violão acústico, sua harmônica e, ocasionalmente, ao piano. Esta edição chegará às lojas em CD duplo ou num Box com 4 LPs vinil 180 gramas. Ambas versões estão em pré-venda e com uma camiseta de brinde. Há ainda uma edição 'deluxe', que vem com livreto recheado de fotos da época.

Circula pela internet o provável ‘set list’ desse 9º Volume da ‘Bootleg Series’:


Disc 1:
1. Man On The Street (Fragment)
2. Hard Times In New York Town
3. Poor Boy Blues
4. Ballad For A Friend
5. Rambling, Gambling Willie
6. Talking Bear Mountain Picnic Massacre Blues
7. Standing On The Highway
8. Man On The Street
9. Blowin’ In The Wind
10. Long Ago, Far Away
11. A Hard Rain’s A-Gonna Fall
12. Tomorrow Is A Long Time
13. The Death of Emmett Till
14. Let Me Die In My Footsteps
15. Ballad Of Hollis Brown
16. Quit Your Low Down Ways
17. Baby, I’m In The Mood For You
18. Bound To Lose, Bound To Win
19. All Over You
20. I’d Hate To Be You On That Dreadful Day
21. Long Time Gone
22. Talkin’ John Birch Paranoid Blues
23. Masters Of War
24. Oxford Town
25. Farewell

Disc 2:
1. Don’t Think Twice, It’s All Right
2. Walkin’ Down The Line
3. I Shall Be Free
4. Bob Dylan’s Blues
5. Bob Dylan’s Dream
6. Boots Of Spanish Leather
7. Walls of Red Wing
8. Girl From The North Country
9. Seven Curses
10. Hero Blues
11. Whatcha Gonna Do?
12. Gypsy Lou
13. Ain’t Gonna Grieve
14. John Brown
15. Only A Hobo
16. When The Ship Comes In
17. The Times They Are A-Changin’
18. Paths Of Victory
19. Guess I’m Doing Fine
20. Baby Let Me Follow You Down
21. Mama, You Been On My Mind
22. Mr. Tambourine Man
23. I’ll Keep It With Mine

Algumas destas músicas de Dylan, jamais foram oficialmente lançadas, embora uma delas, um hino dos direitos civis, "The Death Of Emmett Till", tenha sido incluída na compilação da Smithsonian Folkways, de 1972, "Broadside Ballads, Vol. 6: Broadside Reunion."

O outro lançamento, extremamente aguardado pelos fãs e colecionadores, pegando carona na recente onda de relançamentos em mono, é ‘The Original Mono Recordings’. Que vem a ser um Box com os 8 primeiros discos do bardo, nas suas versões originais, em mono, exatamente da maneira que o artista entendia que aquelas canções deveriam ser escutadas. Esses oito álbuns, que vão de seu disco de estréia em 1962, simplesmente chamado ‘Bob Dylan’, até ‘John Wesley Harding’ de dezembro de 1967 estão entre os mais importantes da história da música.

Segue abaixo, a lista dos oito álbuns que farão parte deste ‘box’, que já está em pré-venda em 2 versões, 8 CDs ou 9 LPs vinil 180 gramas, ambas com um pôster-brinde. Existe ainda uma outra versão, acompanhada de livreto com fotos e um ensaio do consagrado crítico musical Greil Marcus:


Bob Dylan – 1962
The Freewheelin’ Bob Dylan – 1963
The Times They Are A-Changin’ – 1964
Another Side Of Bob Dylan – 1964
Bringing It All Back Home – 1965
Highway 61 Revisited – 1965
Blonde on Blonde – 1966
John Wesley Harding – 1967

Ainda não há previsão de lançamento destes itens no Brasil, mas tudo indica que também ganharão suas edições nacionais. Vamos aguardar!