quinta-feira, 14 de março de 2013

Bob Dylan é eleito membro da 'Academia Americana de Artes e Letras'.

Bob Dylan é eleito membro da 'Academia Americana de Artes e Letras'. É o primeiro músico de rock a ser indicado pelos integrantes da organização, desde sua criação, em 1898.
Os membros da Academia – que abrange música, literatura e artes visuais – não conseguiram decidir se Dylan mereceria entrar por seus textos ou suas músicas e o indicaram como um membro honorário, como fizeram com Meryl Streep, Woody Allen e Martin Scorsese.
 
“O conselho de diretores considerou a diversidade do trabalho dele e reconheceu seu lugar icônico na cultura norte-americana”, disse Virginia Dajani, diretor executiva, à Associated Press. “Bob Dylan é um artista com múltiplos talentos cujo trabalho cruza várias disciplinas e desafia as categorizações”.

Além das escolhas honorárias, a Academia Americana de Artes e Letras consiste em 250 artistas, músicos e escritores. As vagas só são abertas após a morte de um membro e o substituto é escolhido por outros integrantes através de uma votação.
A Academia, fundada em 1898 e com sede Nova York, historicamente mantinha distância de artistas como Dylan, jazzistas e poetas modernistas, e reconhecia músicos clássicos e outros como Stephen Sondheim e Ornette Coleman. Dajani e outros membros apontaram outras organizações que reconheciam rock, como o Hall da Fama do Rock, como o motivo para se manterem distantes de roqueiros.
 
Da sua parte, Dylan aceitou a filiação – uma condição para que ele seja votado –, mas o empresário dele, Jeff Rosen, não garante que ele irá participar do jantar da Academia, em abril, ou da cerimônia de entrada, marcada para maio. O autor Michael Chabon, vencedor do Pulitzer, será o principal orador da cerimônia, cujo nome, em 2013, será “Rock & Roll”.

Fonte: Rolling Stone Brasil

 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Há 40 anos, Bob Dylan colocava nas prateleiras um de seus álbuns menos prestigiados.


Eis aqui mais um artigo da lavra do amigo dylanesco Márcio Grings, jornalista, blogueiro, cronista do Diário de Santa Maria-RS e locutor/apresentador da Rádio Gáucha SM:

A sugestão deste post veio via amigo Sergio Pinho Alves. Em junho de 1970, Bob Dylan lançou um de seus discos mais porreteados de todos os tempos. Tanto que a famosa crítica do jornalista da Rolling Stone, Greil Marcus, começava assim: “Que merda é essa?!?!”. O LP duplo trazia uma colcha de retalhos de canções folclóricas que, ora flertam com o country, folk ou blues. Além disso, algumas faixas ao vivo gravadas meses antes no Festival da Ilha de Wight, acompanhado da The Band, também ganharam luz nessa obra. O resultado final foi um verdadeiro saco de gatos musical. A impressão de muitos na época era de que a fonte criativa de Dylan havia finalmente secado. E esse lance de recorrer ao repertório e aos músicos de Nashville, além de soar oportuno, para alguns também dava pinta de ser “o passeio de um intruso pelo terreno sagrado do cancioneiro americano”. Dessas sessões na primeira metade de 1970, saíram 24 canções que assinaram o trabalho. Segundo o próprio Dylan, ele apenas “aquecia a banda com algumas dessas canções”, e talvez no mínimo uma meia dúzia de números tenha sido registrada de forma equivocada. Outra dúzia de temas ficou devidamente arquivada. E nada dessas sobras foi utilizada no álbum posterior – “New Morning” – lançado quatro meses depois de "Self Portrait", também em 1970. Vale lembrar que mais rebarbas de covers foram usadas para os ensaios de “New Morning”, e também foram (supostamente) jogadas direto dentro de uma gaveta escura da Columbia, de onde (teoricamente) nunca teriam saído.

Depois dessa experiência de levar bordoada de todos os lados, seja da crítica ou do seu público, Dylan virou gato escaldado do artifício de revisitar canções típicas. Como já dissemos, a intenção dele era de que esses temas fossem sepultados para sempre e que nunca mais vissem a luz da humanidade. Infelizmente para ele e, talvez, felizmente para nós, não foi o que aconteceu.
O fato curioso é que essas sobras foram usadas como moeda de chantagem pela Columbia, quando seu disputado ex-menino dourado dos anos 1960 negociava um novo contrato com um selo concorrente. E como a Columbia detinha o direito sobre essas sobras malditas (malfadadas, pelo menos na visão de seu criador), resolveu as lançar em novembro de 1973. Em suma: Dylan foi obrigado a engolir esse sapo. Depois de passada a turbulência, quando o artista renovou seu contrato com a Columbia (onde está até hoje), ele exigiu que o disco fosse retirado do catálogo da gravadora. E foi o que aconteceu. O renegado álbum “Dylan” (como foi batizado o LP) virou peça de colecionador. Lembro que no início dos anos 1990, importei esse título em k-7 (via Japão), já que fora a única forma que havia encontrado de comprar o item que faltava na minha coleção. Atualmente ele pode ser facilmente encontrado em LP (via mercado de usados). Já em CD, o álbum continua sendo muito valorizado. Quem quiser adquiri-lo terá de pagar uma soma considerável para colocá-lo na estante.

Assim como “Self Portrait”, o disco “Dylan” parece ter melhorado com o passar do tempo. Sob esse verniz, muitos perceberam que havia adjetivos no contexto dessas sessões. Alguns artistas, inclusive, citam essa leva gravada na virada de 1969/1970 como influência nas suas respectivas obras. É o caso de Ryan Adams, por exemplo. Ouça o álbum de Ryan Adams & The Cardinals – “Jacksonville City Nights” (2005) e comprove.

Ainda sobre o álbum “Dylan”, que chega aos 40 anos de seu lançamento em 2013, uma das grandes críticas ao produto final que foi colocado nas prateleiras, passa pela mixagem, que realmente soa ruim em algumas faixas. Diversos dos backings femininos, por exemplo, parecem sobrepor a voz do protagonista. E das canções que figuraram no setlist do LP, há algumas autênticas “bolas fora”. Caso de “Mr Bojangles” (Nitty Gritty Dirty Band) e “Big Yellow Taxi” (Joni Mitchell) e “Ballad of Ira Hayes”, canção que se tornou conhecida na voz de Johnny Cash. Essas três versões não passam de meras alusões empalidecidas das originais.
Mas separando o joio do trigo, como não gostar de “Lilly of The West", “Can’t Help Falling in Love” (conhecida na voz de Elvis Presley), “A Fool Such As I” e a minha preferida: “Spanish is The Love Tongue”. Essa última inclusive saiu em compacto como lado B de “Watching The River Flow”, (1971) numa versão mais intimista da lançada dois anos depois. Na música, Dylan arrisca em cantar parte da letra em espanhol.

Nota 5 para o disco. Mas um nota 5 num LP de Bob Dylan tem peso maior.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Está tudo lá!


Acabo de rever, sei lá por quantas vezes, o filme ‘I’m Not There’ (Não Estou Lá, EUA, 2007), cinebiografia poética e surrealista de Bob Dylan, dirigida por Todd Haynes, que utilizou nada menos que 6 atores para interpretar as deferentes fases e aspectos da vida do músico.

Fazia tempo, muito tempo, que não colocava o filme pra rodar e é absolutamente incrível como a cada vez que revisito a película, mais a acho genial! Está tudo lá! A punjança, a beleza, a ira, a melancolia, as idas e vindas da vida e carreira do cantor/compositor/poeta/profeta/artista mambembe ou seja lá como for que você queira rotular o sujeito que, de repente, resolveu atender pelo nome de Bob Dylan. São inúmeras as referências, as citações, os saltos temporais e um misto de realidade crua e fantasia.

O pretexto da vez era procurar uma citação pra uma amiga, sempre uma desculpa pra dar ‘play’, novamente, no disquinho... Algumas cenas são de uma sutileza ímpar, daquelas em que parece ser possível sentir as lufadas de vento entrando pelas janelas.

O filme é quase um delírio do diretor norte-americano, no fundo, um fã confesso de Bob Dylan. A cinebiografia é bastante curiosa pela maneira como a história é contada. Como fosse uma poesia moderna, que foge à métrica tradicional, mas que encanta justamente por isso. É exatamente aí que está o talento do diretor, em transpor para as telas a genialidade do biografado, um artista que enveredou por diversos caminhos e, quando foi seguido, mudou de direção, sempre mantendo o único propósito, tradurzir-se em suas canções...
O elenco do filme é bárbaro e, como já citei acima, Haynes dividiu as diversas ‘personas’ do velho bardo, em diferentes personagens e o melhor de tudo, conseguiu que todos os atores ficassem bem à vontade, de fato encarnando os seus papéis. Seja o Dylan jovem/criança, interpretado por Marcus Carl Franklin, ou o Dylan dos primeiros anos e depois o cristão convertido, interpretados por Christian Bale. Seja o super-astro encarnado por Heath Ledger, ou o Dylan elétrico, papel que, surpreendentemente foi desempenhado por uma mulher, Cate Blanchett. Seja o poeta Dylan/Rimbaud interpretado por Ben Whishaw, ou ainda o fora-da-lei Billy The Kid, interpretado por Richard Gere. 

Épico, dramático, intimista, western, road movie. O filme se transforma na medida em que cada um dos personagens se sucedem. Outro ponto alto é a fotografia, muitíssimo bem trabalhada. Ora em preto e branco, ora num colorido no qual vários tons de amarelo se sobressaem. 

Obviamente que aqueles que não são familiarizados, que não conhecem de perto a vida e a obra do biografado, podem não entender todo o alcance do que vêem na tela e se sentirem um pouco “por fora” do contexto. Mas para os fãs e simpatizantes do bardo, posso garantir, é altamente recomendado.
Experimente ler uma das biografias de Bob Dylan disponíveis no mercado, ou ainda assistir o documentário ‘No Direction Home’, dirigido por Martin Scorsese, e depois encarar ‘I’m Not There’. É uma viagem, uma experiência incrível, uma baita iniciação ao universo dylanesco! 

Mesmo as passagens mais complicadas, como p. ex., as cenas do personagem ‘Billy The Kid’, passarão a fazer todo sentido e o expectador poderá facilmente entrar no clima criado por Haynes.

See you later, Allen Ginsberg!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Poeta musical

Todos sabem da profunda ligação e admiração mútua entre Bob Dylan e o poeta beat Allen Ginsberg. Durante longos anos, um e outro se influenciaram de diversas formas.

Em 1971, encorajado por Dylan, o autor de ‘Uivo’ fez sua incursão pelo mundo da música. Naquela ocasião, entrou nos estúdios para gravar seu primeiro disco. Retornou aos estúdios em duas oportunidades, em 1976 e 1981, para completar a obra. A produção levou longos 12 anos e, finalmente, em 1983 o álbum foi lançado, contando com a participação do próprio Dylan e produção do lendário John Hammond.
Pois bem, o disco, 'First Blues', acaba de ser relançado e já está disponível na Ginsberg Recordings:

http://ginsbergrecordings.com/

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

As capas dos discos dylanescos!

O Daily News, de Nova York, publicou recentemente algumas montagens fotográficas para explicar as localizaçõess das capas de alguns dos grandes álbuns da história. Sendo assim, é claro que as capas dylanescas não poderiam ficar de fora. Veja aqui, alguns resultados:
A foto de capa do 'Highway 61 Revisited, nas escadarias do nº4 de Gramercy Park West, em Nova York.
A famosa foto de capa de 'The Freewheelin' Bob Dylan', na qual o jovem bardo passeia ao lado de sua então namorada, Suze Rotolo, na da Jones Street, com West 4th Street, em NovaYork.
A localização do célebre vídeo-clip de 'Subterranean Homesick Blues', no beco do Hotel Savoy de Londres.
Pra completar, a Musicpilgrimages encontrou a localização da capa de 'Street Legal': o nº 2501 da Main Street, em Santa Monica.

Pinturas de Bob Dylan expostas em Milão

Pinturas de Bob Dylan, da Série 'New Orleans', estarão em exposição de 05 de fevereiro a 10 de março de 2013, no 'Palazzo Reale', em Milão (ITA).
 A série, ispirada em fotografias da época, procura retratar a New Orleans dos anos ’40 e ’50. Os quadros fazem parte do mais recente trabalho do velho bardo, em suas incursões pelas artes plásticas, que anteriormente incluiu uma leva inteirinha, tendo o Brasil como fonte de inspiração.

Gravadora lança caixa com 86 'takes' de Bob Dylan

A Sony Music lançou, no mercado europeu, uma nova coletânea de Bob Dylan. A edição, limitada a apenas 100 exemplares: The 50th Anniversary Colletction: The Copyright Extension Collection Vol.1, reúne 86 faixas, dividas em 4 cd’s. Na coletânea, encontram-se alguns registros ao vivo e outtakes das gravações do disco The Freewhelin’ Bob Dylan. Todas as faixas foram registradas entre os anos de 1962 e 1963.
O ‘box’ traz raridades da carreira do bardo, entre sobras de estúdio e versões raras de músicas como Mixed Up Confusion, Sally Gal, That's All Right, Mama e Baby, Please Don't Go, além de três versões (uma no piano e duas no violão) que Dylan fez para a clássica Milkcow’s Calf Blues, do lendário bluesman Robert Johnson.
A explicação da gravadora, para um lançamento tão limitado, não é o fato de enlouquecer colecionadores no mundo inteiro, ou ainda incentivar o altíssimo preço que já está sendo cobrado pelos disquinhos, em sites de leilão e vendas, algumas das cópias já podem ser encontradas à venda na internet, por preços que ultrapassam os US$ 1 mil, mas sim garantir os direitos em sua própria obra. 
Isto decorre da mudança na legislação de direitos autorais na Europa. Atualmente, as leis europeias defendem os direitos autorais de um trabalho artístico, em até 50 anos. Passado meio século, tudo se torna domínio público. As leis na Europa estão em fase de transição. Em 2011, a União Europeia extendeu os direitos autorais para 70 anos. Entretanto, a nova lei só entrará em vigor em 2014. Por isso, a Sony agiu rápido.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Notícias fresquinhas...

Essas aqui são notícias fresquinhas, do 'Dylan Examiner', e nós, dylanescos, ansiosamente esperamos que se confirmem. De acordo com Harold Lepidus, um sujeito sempre muitíssimo bem informado em matéria dylanesca, estão previstos alguns lançamentos de Bob Dylan, num futuro próximo. São eles:
1. 'Blood On The Tracks - Sessions', o 'alternate', das sessões de Nova York.
2. CD/DVD dos 'Supper Club Shows', de 1993
3. A chegada das 'Bootleg Series' ao formato DVD, incluindo de forma oficial, o especial de TV 'Hard Rain', de 1976.
4. Um documentário sobre a 'Rolling Thunder Revue'.
5. Um possível 'box set' com as 'Blonde On Blonde - Sessions'.
Ainda não há nada confirmado e as informações acima não são oficiais. Por enquanto, sabemos apenas do lançamento do compacto (Duquesne Whistle - 2012 Record Store Day - Black Friday Release 7-inch), que como podem ver, faz parte da chamada Black Friday do evento internacional 'Record Store Day', trazendo de um lado a própria "Duquesne Whistle", e do outro, "Meet Me in the Morning" (unreleased version). Será uma edição limitada a 5.000 cópias e estará à venda nas lojas independentes dos EUA, a partir de 25 de novembro deste ano...

De todo modo, é ficar numa grande torcida pra que a notícia (ou pelo menos, parte dela) se confirme e possamos adicionar às nossas prateleiras, essas verdadeiras preciosidades!

sábado, 15 de setembro de 2012

Bob Dylan e a Tempestade

O amigo dylanesco Miguel Cordeiro, consegui captar de uma forma bem particular, a essência de 'Tempest', álbum de Bob Dylan, recém-lançado, com seu desenho sobre papel e um belo texto, que reproduzimos abaixo, no qual faz uma breve resenha do novo disco do velho bardo!

Bob Dylan e a Tempestade
A resposta que soprava com o vento que Bob Dylan falou no início da década de 1960 era uma brisa de esperança em uma época que ainda restava hipóteses de fraternidade universal. Mas agora, ao lançar o álbum Tempest, o poeta roqueiro da contracultura vocifera um amontoado de dúvidas sobre um mundo violento, desesperançado, envolto por tempestades sem previsão para acabar e nem sinal de bonança no horizonte.
Aos 71 anos de idade, o artista Dylan continua em plena forma. Algo quase impossível de se pensar para um astro da música popular que iniciou carreira há cinquenta anos atrás. E se sua voz soa desagradável para os apreciadores do bel canto, ela se encaixa como uma luva para aquilo que ele se propõe a dizer. As palavras emergem das catacumbas da alma na melhor tradição dos velhos blueseiros.

Sua poesia musicada está tão afiada quanto nos melhores tempos, porém enxuta, com versos curtos e menos discursivos. As imagens que surgem de Tempest falam de cadáveres arrastados na lama, feridas abertas em sangue, políticos que mijam nas pessoas, reis que destroem cidades e indivíduos, vinhos envenenados, o desespero dos náufragos do Titanic, e os tiros que mataram seu amigo John Lennon.
A sonoridade de Tempest segue o padrão que Dylan estabeleceu para sua criação a partir de Love and Theft, álbum de 2001. Rocks básicos, blues, folk e o cancioneiro pré-rock´n´roll dos anos 1930 e 1940. Nada de influências moderninhas, nenhum acorde de guitarras distorcidas simuladas através de processos digitais que se tornaram padrão no rock marqueteiro do hype dos últimos quinze anos.

Tudo em Tempest é propositalmente elaborado para estar do lado oposto ao que existe na cena da música pop atual. A coisa é crua, feita na mão, na unha. E apesar do clima sombrio e apocalíptico que as canções evocam, Dylan e sua fantástica banda de apoio parecem se divertir enquanto executam a trilha sonora destes dias malucos. Até parece a orquestra do Titanic nos momentos finais.

Quem quiser conferir um pouco mais da arte de Miguel, segue o link: http://www.miguelcordeiroarquivos.blogger.com.br/index.html

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Tempestade na alma!

Uma semaninha antes do seu lançamento oficial e eis que 'Tempest', novo álbum de Bob Dylan, vazou na internet. Uma pedrada dylanesca! Um dia após o vazamento, a Sony tratou de disponibilizar oficialmente o álbum, para audição gratuita, através do iTunes.

Confesso que estou embriagado de 'Tempest'! Desde ontem à noite (03/09, quando o disquinho vazou) que não escuto outra coisa. Diria até que após sucessivas audições, já tenho inclusive minhas preferidas: "Narrow Way"; "Pay in Blood" & "Duquesne Whistle", mas os amigos dylanescos não devem levar isto tão a sério, porque hoje mesmo pode mudar. Em se tratando de Dylan, sou extremamente volúvel e às vezes demoro um pouco pra me acostumar com algumas canções.

A faixa título, "Tempest", a tão aguardada canção sobre o naufrágio do Titanic, é uma verdadeira epopeia de quase 14 minutos! Poderia mesmo ser um filme, mas daqueles antigos, talvez em preto & branco, sem os efeitos especiais do James Cameron.

Abaixo, mais uma excelente contribuição do amigo dylanesco Márcio Grings, que nos permitiu compartilhar sua ótima resenha do novo disco:

Tempestade na alma!

Resenha de "Tempest", 35° álbum de Bob Dylan (04 de setembro de 2012) - Com comentários, impressões e citações extraídos da comunidade do Facebook ‘Bob Dylan -  Brasil’ (Agradecimentos: Doofy Mostarda, Sergio Pinho Alves, Carolina Andrade, Thiago Joey, Fábio Feldman, Thiago Ramires, e muitos outros dylanescos de plantão. Agradecimento especial: Denise B. Lopes)
O navio nem atracou, e o disco já está navegando. Em primeiro lugar: aos 71 anos, ninguém, mas ninguém mesmo - toca Dylan como Dylan. E falo principalmente das canções dos últimos três álbuns – não incluindo o natalino “Christmas in the heart” (2009). Colocando no saco as novas músicas que acabam de vazar na rede, os 10 temas também foram compostos sob medida para a irregular voz catarrenta do cantor e compositor norte-americano.

E mais: profetizo sem medo de errar: ”Tempest”, álbum com data agendada para o próximo dia 11/09, sem dúvida irá postular em todas as listas dos melhores de 2012. Depois de vazar por inteiro na internet na última segunda-feira (03), a Sony resolveu disponibilizar o álbum na íntegra para audição (gratuitamente e por tempo limitado).


O título já é o recordista do ano no quesito pré-venda no site Amazon. Sobre o nome do álbum, especulou-se que seria uma referência à “A Tempestade”, última obra de William Shakespeare. Dylan laconicamente refutou a referência em entrevista à revista Rolling Stone.  Agora prepare-se - as letras estão sim - shakesperianas e quilométricas: amor, tragédia, traição, vingança, e tantos outros temas comuns à humanidade a milênios.

Segundo o blog Dylanesco, a imagem da capa mostra um detalhe da fonte Palas Atena, localizada em Vienna, Áustria. Atena é, na mitologia grega, a deusa da guerra, da civilização, da sabedoria, da estratégia, das artes, da justiça e da habilidade. John Smith, um morador de Duluth, onde Dylan nasceu, afirmou no Facebook que na escola da cidade havia uma estátua parecida.
O bardo gravou o álbum no Groove Masters, estúdio de Jackson Browne, em Santa Monica (CA), com a banda que atualmente o acompanha na estrada (mesma trupe que passou pelo Brasil em abril), mais a ajuda de David Hidalgo (Los Lobos). O disco foi produzido por Jack Frost, ou seja, pelo próprio Bob Dylan, já que Frost não passa de um alter ego do artista.

“Tempest” começa com a satírica “Duquesne Whistle" e sua introdução foxtrote em fade-in que nos deixa com a sensação de estarmos ouvindo um radinho de pilha ao longe, como um som opaco vindo da cozinha. Piano, violão e guitarras fazem um empolgante esquenta ‘jazzy’ de 43 segundos. Na sequência surge uma melodia repetitiva empurrada pela pulsação do contrabaixo acústico de Tony Garnier, em conjunto com a bateria de George Receli e a guita' rítmica de Stu Kimball e supostamente David Hidalgo. Dylan canta “You say I’m a gambler / You say I’m a pimp / But I ain’t neither one” [Você diz que eu sou um jogador / Você diz que eu sou um cafetão / Mas eu não sou nenhum desses]. A banda soa como uma velha locomotiva passeando num desenho animado. “Duquesne Whistle” ganhou vídeo clipe e também foi escolhida para figurar como primeiro single do álbum.
“Soon After Midnight” reza na cartilha country. Também rememora Buddy Holly, parece algo familiar, antigo e deslocado no tempo. Steel guitar mandando ver, entrecortado por uma guitarra à lá James Burton. Dylan avisa que logo depois da meia noite, ele irá se encontrar com a Rainha das Fadas. "Charlotte's a harlot / Dresses in scarlet / Mary dresses in green  / It's soon after midnight / And I've got a date with the Fairy Queen". Hummm... Isso me soa a um puteiro!

“Narrow Way" é um hipnótico blues pesado com riff de guitarra repetitivo que nos deixa em ponto de bala. A música nunca muda, e isso, acreditem - não é irritante! 7min e 28seg de pura festança, no máximo uma guitarra gritando um pouco mais alto que a outra. Como galos de rinha reconhecendo o terreno e mostrando as esporas. Logo no início ele diz: "I won't even think about what I left behind" [eu não vou nem pensar naquilo que deixei para trás]. Quando estamos no meio do caminho, não tem outro jeito. Receli dá show na bateria. Alguém disse que “Narrow Way” poderia ter sido gravada em 1965, quem sabe seria uma boa faixa em “Bringing It All Back Home” ou “Highway 61 Revisited”? Não tenho dúvida que entrará nos setlists de suas apresentações. Outra constatação: acredito que Dylan tenha encontrado sua melhor banda, ou no mínimo a que mais raciocina na sua batida atual.

“Long and Wasted Years” trata-se de outro tema chamuscado com influência caipira. Na introdução, os músicos atuam como uma banda de quermesse com equipamentos de segunda mão. Quando Dylan canta, o lance fica mais sofisticado. Dá vontade de “tirar” a prenda e sair dançando de rosto colado pela casa. A melodia lembra “I'm Tired Joey Boy”, de Van Morrison, tema que Dylan tocou no ‘Theme Time Radio Hour’, seu extinto programa de rádio. Outra balada de lascar! A letra sugere um amor proibido. Em dado momento, Dylan confessa: "I wear dark glasses to cover my eyes / there are secrets in them i cant disguise” [Eu uso óculos escuros para cobrir meus olhos / Há segredos neles eu não consigo disfarçar].  Revelador.
Se buscarmos comparações com "Love & Theft, álbum lançado em 2001 (um dos preferidos de Bob), eis a "Mississippi" de "Tempest". "Pay in Blood" tem o vocal catarrento e desgastado, tipo “recém acordei, fumei um charuto e vou cantar uma canção!?!?”. Desde já é minha preferida. Eu percebo resquícios de Stones nas guitarras, e nesse caso, abriria um exceção imaginando Keith Richards como vocalista. Imaginem como iria ficar? Finésse!
Bom, chegamos em “Scarlett Town”. Violão na linha de frente, banjo no meio campo, piano minimalista e violino a lá "Scarlett" Rivera. Uma triste bonita melodia que poderia ser trilha sonora de um faroeste de Sam Peckinpah (eu já vi esse filme?!). A canção lembra vagamente o clima sombrio de “Nettie Moore”, de ‘Modern Times’. E essa “Scarlett Town” que Dylan nos narra, pode ser qualquer pequena cidade do mundo. Em uma de minhas audições, voltei ao bairro, a rua, relembrei muitas pessoas com as quais convivi. Quando adentramos o cerne do tema, Bob SEMPRE nos convence.

“Early Roman Kings” não passa de um blues descarado, encardido que emula “I'm a Man”, de Bo Didley. "Mais uma daquelas que o velho pega emprestado". Exato! Dylan aprecia recauchutar canções antigas. Algo que ele fez com mais frequência nos últimos álbuns. E esses empréstimos melódicos são comuns na história do blues. Como bem lembrou o amigo Sérgio P. Alves no Facebook: “I'm a Man” também foi inspirada em “Hoochie Coochie Man”, de Dixon. Por sua vez, serviu de ponto de partida para a criação de “Manish Boy”. Ou seja, ninguém é de ninguém. Destaque para o acordeão de David Hidalgo, fazendo as vezes de Little Walter e transformando  a música numa espécie de Texmex Blues. Aparentemente, os “Roman Kings” a que se refere, não são os verdadeiros reis romanos de outrora, mas uma gangue nova-iorquina do início do século XX, formada, basicamente, por carcamanos.

“Tin Angel”, fala sobre um homem em busca de um amor perdido. Musicalmente é um dos pontos menos impressionantes do disco. De todo o modo, a banda fica apenas tique-taqueando e fazendo a cama para que o narrador possa contar uma das mais enigmáticas e trágicas histórias de amor da biografia dylanesca. Desde “Isis” ele não incursionava por um tema tão brutal: “You died for me / I’ll die for you". [Você morre por mim / E eu morro por você]. Ela coloca a lâmina no seu coração e parte para a eternidade ao encontro do amante. E ao chegarem no céu, existem tochas brilhantes que iluminam noites e dias. Alguém tem dúvida que Dylan é o Shakespeare da música POP?
“Tempest”, a faixa título do trabalho, emula uma das tragédias mais lembradas do século passado, o naufrágio do Titanic. O tema parece ter sido inspirado em uma canção da Família Carter. Essa autêntica epopeia dylanesca em ritmo de valsa, que começa puxada por uma rabeca e acordeão, figura entre as três canções mais longas do compositor (13min e 54seg) e mistura uma série de personagens obscuros com nomes ligados ao tema cinéfilo do filme, como o ator Leonardo Di Caprio (mencionado duas vezes). No entanto, esqueçam qualquer referência a James Cameron ou Celine Dion, o lance aqui é ancestral, remonta a uma antiga canção de ninar folclórica.

“Tempest” fecha as cortinas homenageando John Lennon. “Roll on John” saúda o velho amigo e narra episódios da carreira do Beatle, com direito a citações de “A Day in the Life” cruzando frente a versos de William Blake. "From the Liverpool docks to the red-light Hamburg streets / Down in the quarry with The Quarrymen / Playing to the big crowds, playing to the cheap seats / Another day in the life on your way to your journey then". Novamente steel guitar, violões, um banjo rolando de leve. Belo tributo ao mais turbulento dos Fab Four.
Simplesmente o Melhor Álbum de 2012. Na minha estante ficará lado a lado com "Time Out of Mind", "Love & Theft" e "Modern Times". Daqui há 20 ou 30 anos, tenham certeza, ainda vamos falar de "Tempest" e das profecias incrustadas nas letras. Afinal: "Se a Bíblia estiver certa o mundo vai explodir". Certas vezes ficamos com medo das turbulências que entortam em frente nossos olhos. Eu afirmo: - nada como uma tempestade dessas para nos deixar encharcados de júbilo.

por Márcio Grings, originalmente publicado no Blog do Grings: