quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Direto do forno!

Tem novidades ‘dylanescas’ no forno. Segundo a Newsletter do site oficial do Bob Dylan, a Sony/Columbia prepara dois grandes lançamentos, previstos para chegarem às lojas (pelo menos nos EUA e na Europa), no dia 19 de outubro de 2010. O primeiro deles é ‘The Bootleg Series Volume 9 – The Witmark Demos’, nada mais, nada menos que 47 canções gravadas entre 19612e 1964, em suas próprias editoras de música, Leeds Music e M. Witmark & Sons, apenas com Bob Dylan e seu violão acústico, sua harmônica e, ocasionalmente, ao piano. Esta edição chegará às lojas em CD duplo ou num Box com 4 LPs vinil 180 gramas. Ambas versões estão em pré-venda e com uma camiseta de brinde. Há ainda uma edição 'deluxe', que vem com livreto recheado de fotos da época.

Circula pela internet o provável ‘set list’ desse 9º Volume da ‘Bootleg Series’:


Disc 1:
1. Man On The Street (Fragment)
2. Hard Times In New York Town
3. Poor Boy Blues
4. Ballad For A Friend
5. Rambling, Gambling Willie
6. Talking Bear Mountain Picnic Massacre Blues
7. Standing On The Highway
8. Man On The Street
9. Blowin’ In The Wind
10. Long Ago, Far Away
11. A Hard Rain’s A-Gonna Fall
12. Tomorrow Is A Long Time
13. The Death of Emmett Till
14. Let Me Die In My Footsteps
15. Ballad Of Hollis Brown
16. Quit Your Low Down Ways
17. Baby, I’m In The Mood For You
18. Bound To Lose, Bound To Win
19. All Over You
20. I’d Hate To Be You On That Dreadful Day
21. Long Time Gone
22. Talkin’ John Birch Paranoid Blues
23. Masters Of War
24. Oxford Town
25. Farewell

Disc 2:
1. Don’t Think Twice, It’s All Right
2. Walkin’ Down The Line
3. I Shall Be Free
4. Bob Dylan’s Blues
5. Bob Dylan’s Dream
6. Boots Of Spanish Leather
7. Walls of Red Wing
8. Girl From The North Country
9. Seven Curses
10. Hero Blues
11. Whatcha Gonna Do?
12. Gypsy Lou
13. Ain’t Gonna Grieve
14. John Brown
15. Only A Hobo
16. When The Ship Comes In
17. The Times They Are A-Changin’
18. Paths Of Victory
19. Guess I’m Doing Fine
20. Baby Let Me Follow You Down
21. Mama, You Been On My Mind
22. Mr. Tambourine Man
23. I’ll Keep It With Mine

Algumas destas músicas de Dylan, jamais foram oficialmente lançadas, embora uma delas, um hino dos direitos civis, "The Death Of Emmett Till", tenha sido incluída na compilação da Smithsonian Folkways, de 1972, "Broadside Ballads, Vol. 6: Broadside Reunion."

O outro lançamento, extremamente aguardado pelos fãs e colecionadores, pegando carona na recente onda de relançamentos em mono, é ‘The Original Mono Recordings’. Que vem a ser um Box com os 8 primeiros discos do bardo, nas suas versões originais, em mono, exatamente da maneira que o artista entendia que aquelas canções deveriam ser escutadas. Esses oito álbuns, que vão de seu disco de estréia em 1962, simplesmente chamado ‘Bob Dylan’, até ‘John Wesley Harding’ de dezembro de 1967 estão entre os mais importantes da história da música.

Segue abaixo, a lista dos oito álbuns que farão parte deste ‘box’, que já está em pré-venda em 2 versões, 8 CDs ou 9 LPs vinil 180 gramas, ambas com um pôster-brinde. Existe ainda uma outra versão, acompanhada de livreto com fotos e um ensaio do consagrado crítico musical Greil Marcus:


Bob Dylan – 1962
The Freewheelin’ Bob Dylan – 1963
The Times They Are A-Changin’ – 1964
Another Side Of Bob Dylan – 1964
Bringing It All Back Home – 1965
Highway 61 Revisited – 1965
Blonde on Blonde – 1966
John Wesley Harding – 1967

Ainda não há previsão de lançamento destes itens no Brasil, mas tudo indica que também ganharão suas edições nacionais. Vamos aguardar!

terça-feira, 6 de julho de 2010

Mais literatura dylanesca...


Mais um pouco de “literatura dylanesca” disponível no mercado editorial nacional. Trata-se do Livro “Like a Rolling Stone”, do crítico Greil Marcus, traduzido para português e recentemente lançado pela Companhia das Letras com o subtítulo “Bob Dylan na Encruzilhada”.

Terminada a leitura do livro, queria deixar aqui no Blog minha impressão definitiva a respeito do mesmo. Quer dizer, definitiva talvez nem seja a palavra adequada, já que muitas vezes uma releitura faz com que a aquela impressão inicial por vezes se modifique. Mas vamos lá:

O livro parte de uma premissa bastante promissora, que é discutir a música hoje, vista sob uma perspectiva histórica, 45 anos depois. Confesso, porém, que não me agradou muito, embora não seja ruim. Achei um pouco chato, meio pretensioso, intelectualóide...

Greil Marcus é um crítico conceituadíssimo, tem uma extraordinária bagagem, mas no livro, a impressão que me deu é que apela pra muita filosofia e pouca informação concreta. Tenta soar como um profeta, um iniciado, alguém que fez uma descoberta ou talvez tenha uma revelação a fazer. A mim, pareceu um pouco presunçoso, embora admita que muita gente possa gostar do estilo. Eu talvez seja mais adepto à pesquisa, a dados biográficos, etc.

Talvez minha expectativa tenha sido muito elevada, mas me deu a impressão que às vezes o autor viaja numas interpretações da 'obra dylanesca'. Soa como se fosse o único a compreendê-la, um 'escolhido', mas objetivamente não diz muita coisa. De fato, o livro tem algumas ótimas passagens, como uma bela homenagem do Dylan a Sam Cooke; o episódio da torça do produtor de Tom Wilson para Bob Johnston e outra, interessantíssima, sobre o início hesitante da carreira de Jimi Hendrix e de como as tentativas dele de tocar os discos de Dylan para amigos no Harlem, eram recebidas com desdém.

Além destas, posso citar diversas outras, como a que pinça uma fala de Mike Bloomfield, sobre Newport ´65, na qual ele dá a entender que a rejeição ao ‘Dylan elétrico’ pelos puristas talvez tenha se dado muito mais por levar eletricidade ao templo acústico. Bloomfield afirma que Lightnin´ Hopkins, p. ex., havia 12 anos que gravava discos ‘eletrificados’, mas não levava sua banda ao festival, chegando lá como se recém-saído dos campos. Uma outra sobre o desespero que levou Levon Helm a deixar a banda em plena turnê americana, por não suportar conviver com vaias e platéias enfurecidas.

Uma nota de rodapé que chama atenção é sobre o amigo paraplégico Larry Keagan, que conservou consigo um disco de alumínio com algumas das 1ªs gravações do Bob em 1956. Quando morreu, em 2001, a família dele teria tentado, sem sucesso, vender o disco no eBay pela bagatela de US$ 150 mil. Muito legal também a narrativa da obsessão do Dylan pela Highway 61.

A melhor parte, porém, talvez por ser provavelmente a mais esperada, vem no Capítulo 10, com o relato do famoso show “Judas!”, em Manchester, Inglaterra, que leva o autor, sabiamente, a considerar que nem “Like a Rolling Stone”; nem Dylan; nem o seu público foram os mesmos após aquela turnê.

Pode parecer antagônico, com tanta coisa interessante, achar o livro um pouco chato. Porém, na minha opinião, falta fluidez ao texto em boa parte do livro. Às vezes a leitura se torna modorrenta e a impressão que dá, é que o autor tenta soar profético, revelador, alguém que alcançou algo que os demais não conseguiriam. Bem, são apenas minhas impressões. Recomendo que leiam e tirem as suas próprias...

Outra coisa que merece registro, é que o autor poderia ter economizado algumas páginas, deixando de fazer as absolutamente dispensáveis referências aos Pet Shop Boys e Village People. Aliás, Marcus é autor daquela resenha do disco 'Self Portrait', a famosa "Que merda é essa?". Talvez fosse hora do Dylan devolvê-la, no momento que Marcus faz estas referências no livro dele.


Foto em frente à Livraria Cultura, do Conjunto Nacional, em São Paulo, onde o livro era destaque.

Like a Rolling Stone - Bob Dylan na Encruzilhada
Greil Marcus (Companhia das Letras; tradução de Celso Mauro Paciornik; 256 páginas)

domingo, 4 de julho de 2010

O Álbum Branco de Dylan

Aqui vai mais um excelente texto sobre o ‘Great White Wonder’, famoso bootleg do Bob Dylan, já abordado aqui no Blog. Esse é da lavra de Marcelo Xavier, grande amigo e verdadeira ‘dylanpedia’.

Em fins de 1969, o New York Times largou essa nota:

O artigo era a respeito da considerável repercussão que um álbum lançado no mercado negro (um bootleg) norte-americano, contendo material inédito de Bob Dylan. O disco, intitulado Great White Wonder, cuja concepção (era branco e duplo) remete ao White Album, dos Beatles, havia sido destaque na Rolling Stone em junho do ano anterior, em outro artigo, Dylan's Basement Tape Should Be Released.

O disco caiu nas ruas e a notícia dá conta de que a gravadora do autor de Blowin' In The Wind, a Columbia, ia tomar todas as medidas necessárias, cabíveis e possíveis a fim de tirar aquele escandaloso disco das lojas.

A história é a seguinte: em 1967, no auge do Verão do Amor, Dylan foi morar no mato nos arredores de Nova Iorque. Pessoal da antiga banda de apoio dele, os Hawks, que tinha relação como empresário dele na época, o Albert Grossman, acabou indo também para lá, e armaram um Q.G. num casarão cor-de-rosa que entraria para a história do rock.

O porão da casa virou um estúdio improvisado. O bando ficou boa parte do verão e do outono gravando, compondo material novo &/ou fazendo covers de temas folk antigos, tudo gravado em rolo. Gravaram mais de cem músicas. Muita coisa os Hawks não sabiam se eram do Bob Dylan ou covers, mesmo. Mas era só clicar no Play/Rec e pagar para ver...

Dylan saiu de lá no fim de 67 para gravar seu próximo disco, o John Wesley Harding, um trabalho totalmente apsicodélico. O curioso é que, para isso, ele dispensou os Hawks e o que ele gravou, com um grupo de Nashville (como fizera com o Blonde On Blonde), não tinha nada a ver com aqueles demos do porão.

O resultado da brincadeira foram rolos e rolos de música. Parte do material inédito seria mandado para a editora musical dele e de Grosmann, a Dwarf. Esse mesmo material foi passado para acetato — e eis que o astuto Grosmann não se fez de rogado: mostoru as novas canções para outros artistas (alguns empresariados por ele), que se interessaram em levar para o disco.

Assim se deu: por exemplo, o Fairport Convention gravou Million Dollar Bash, Manfred Mann registrou Mighty Quinn; Peter, Paul And Mary gravou Tears Of Rage, os Byrds, por sua vez, fizeram a festa: gravaram You Ain't Goin' Nowhere; Nothing Was Delivered e Wheel's On Fire.

Os Hawks — agora já batizados como The Band — gravaram Tears Of Rage, Wheels On Fire. George Harrison, que era amigo do Dylan, ouviu esse material e mostrou para seus três amigos. Diz-se que a idéia das sessões do Get Back foram inspiradas pelas sessões de Woodstock. De forma descompromissada, inclusive, ele e o Paul gravaram respectivamente I Shall Be Released e Please Mrs. Henry, na Apple.

A questão era justamente tentar entender porque depois de um ano, as gravações não foram lançadas oficialmente pela Columbia, e por que elas se diseminaram como sífilis pelo meio musical de forma endêmica. Quando a Rolling Stone se perguntou por qual razão as fitas não tinham um destino lógico, parte delas saiu na famosa versão bootleg, o Great White Wonder.

O disco, concebido por algum colecionador norte-americano, em 69. Ele passa por três fases do compositor.

A primeira, é uma gravação caseira, de 1961, onde ele toca parte do seu repertório do começo da carreira, que se assemelha naturalmente com o seu primeiro álbum: Candy Man, Ramblin' 'Round, Black cross, Ain't Got No Home, Death of Emmett Till e duas que foram lançadas oficialmente, See That My Grave Is Kept Clean e Man of Constant Sorrow.

A segunda cobre já a fase "elétrica", com material inédito do Bringing All Back Home: If You Gotta Go, Go Now (Or Else You Got To Stay All Night) e Sitting On a Barbed Wire Fence.

A terceira finalmente traz a peça de resistência do Álbum Branco de Dylan: highlights dos tapes de Woodstock, antes registrado em acetato: I Shall Be Released, Open The Door, Homer, Too Much of Nothing (que Petr Paul And Mary gravaram), Nothing Was Delivered e a belíssima Tears of Rage — composto em parceria com Rick Danko e que se tornaria um clássico com a The Band.

Esse material passou a ser pirateado largamente nos anos seguintes, e o Great White ganharia uma segunda parte. Dylan decidiu regravar oficialmente algumas canções, como I Shall Be Released e You Ain't Going Anywhere, que saíram no Greatest Hits II, de 71.

Em 1975, a fim de tentar estancar a pirataria infrene, a Columbia remixou parte dos masters de 1967, regravando alguns instrumentos e incluindo coisas que não nasceram oficialmente em Woodstock, como Katie's Been Gone e Bessie Smith, que são da The Band/Hawks e lançaram o conhecido The Basement Tapes.

Detalhe é que, mesmo que objetivo e conciso, a versão oficial deixou muita coisa de fora. Um exemplo é Quinn The Eskimo, que só foi lançado pela CBS na coletânea Biograph, de 1985. E, a rigor, nenhuma versão do Great White Wonder é idêntica a do Basement Tapes. Outro: I Shall Be Released, cujo título é o mote do artigo da Rolling Stone, aparece no GWW mas não saiu no elepê duplo de 75.

E é claro e cristalino que, depois de quarenta anos, esse bootleg — considerado como um dos primeiros da história, junto com o Kum Back, dos Beatles e outros, possui apenas valor histórico: muito desse material viu a luz do dia no Bootleg Series 1961-1991.

Por Marcelo Xavier
highway61@bol.com.br
Originalmente publicado em Vitrola, Minha Vitrola
http://vitrolaminhavitrola.blogspot.com/2010/06/o-album-branco-de-dylan.html

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Alguma Puta Velha de San Pedro...


Este é mais um texto do meu amigo Diego Quadros, exímio contador de histórias. Desta vez, ele se debruça sobre a belíssima trilha dylanesca para o filme "Pat Garret & Billy the Kid" de Sam Peckinpah. Abaixo o relato dele:

Quando conheci o álbum Pat Garret & Billy The Kid, do Bob Dylan, eu ainda não tivera a oportunidade de assistir ao excelente filme homônimo de Sam Peckinpah. Entretanto, eu lembro que colocava o disco pra tocar durante a noite, pouco antes de dormir, e, de olhos fechados, me sentia sendo diretamente remetido àquele mundo árido, povoado de personagens cruéis e duros, onde as pistolas ditavam as regras e o sangue jorrava em abundância, podendo inclusive ouvir o zunido das balas passando rentes ao meu ouvido.

Ainda na primeira faixa, Main Title Theme (Billy), com aqueles acordes secos de violão, o compasso pertubador feito pela meia-lua e o solo que age como um narrador contando uma emocionante história de aventura ocorrida em tempos remotos, eu já era capaz de visualizar um Pat Garret envelhecido levando uma saraivada de tiros sobre sua carroça, vindo a despencar já sem vida no chão arenoso da desértica fronteira com o México. Eu podia me sentir testemunha ocular dos assassinatos de Billy The Kid, estando tão perto a ponto de escutar alguém gritando “William Bonney acaba de matar mais um homem!” e um dos assistentes do xerife, sob a mira da espingarda empunhada pelo fora-da-lei, sussurrando: “É... e ele vai me matar também!” Eu podia tocar no cadafalso erguido para suspender o corpo do jovem pistoleiro durante a execução por enforcamento.


Eu podia tudo isso porque, ao ouvir esse maravilhoso e não-convencional álbum, eu me sentia lá... e, de fato, eu estava lá!

Cantina Theme (Workin’ For The Law) me transportava a um saloon onde apostadores mal-encarados jogavam pôquer e putas de seios caídos ficavam em volta fazendo a corte. Ou então me conduzia a alguma cantina de um vilarejo isolado no meio do deserto, em que um caçador de bandidos era homem suficiente para tomar uma garrafa de tequila barata em meio a um grupo de bandoleiros assassinos foragidos. A percussão de Cantina Theme, aliás, nos traz a sensação de que está antecipando um daqueles momentos de tiroteio desenfreado, aquelas cenas de massacre onde nós temos certeza de que a única verdade é que a maioria não sairá daquela espelunca vivo. Eu ainda hoje, quando escuto essa música, sou capaz de imaginar um close de olhos frios e atentos encarando o oponente, alertas a qualquer movimento em falso.

Tensão maior que essa, porém, eu sinto já nos primeiros segundos de Billy 1, quando a gaita tocada por Dylan entra rasgando o espírito, com um tom de agonia e desespero de partir o coração de qualquer espectador/ouvinte. Chego a ficar angustiado! Então o menestrel do oeste selvagem resolve ir além e dispara com sua voz característica um aviso ao herói: “Há armas do outro lado do rio mirando em você... um homem da lei no seu encalço louco pra te pegar... caçadores de recompensa dançando ao seu redor... Billy, eles não gostam que você esteja tão livre!” Como não se identificar logo de cara com um personagem desses? Quem nunca se sentiu numa situação dessas antes, ainda que metaforicamente?

River Theme, por sua vez, me lembra um cortejo fúnebre... mas também poderia ser uma señorita mexicana – ou mesmo uma índia – lavando roupas na margem do rio, cantarolando melodias monossilábicas nostálgicas... “Lá–rá... lá-lá-lá-lá...” É uma canção com capacidade de nos transmitir sua intenção emocional tão forte e saliente quanto Turkey Chase. Escutem esta música e tentem imaginar uma cena onde alguns ladrões-de-gado baratos se dedicam a um pequeno momento de lazer tentando caçar perus selvagens montados em seus cavalos... tentem perceber a descontração e o divertimento dos personagens... é fácil, não?

Knockin’ On Heaven’s Door é um caso à parte. É o único hit do disco, sendo conhecido por um público tão vasto que ultrapassa as barreiras espaço-temporais. Como é do conhecimento de todos, tem uma letra belíssima que se torna ainda mais poética quando inserida no contexto da película de Sam Peckinpah, onde vemos um xerife Baker ferido mortalmente, cambaleando em direção ao rio para sentar numa pedra com a mão por sobre o ferimento e contemplar a beleza da vida, saciando o seu desejo de partir navegando para bem longe em seus últimos momentos antes da morte.


Final Theme não poderia ser mais apoteótica e tocante... é como o encerramento de uma fantástica história que acabamos de ouvir de alguém que esteve lá e fez parte de tudo... alguém que narra os fatos com tamanha veracidade e precisão que simplesmente não tem como não nos sentirmos um dos personagens da aventura... é o desfecho de um conto sobre homens destemidos e indomáveis... sobre valores como honra, amizade, justiça e coragem... é a música que nos coloca frente a frente com um Billy The Kid atingido no peito por um tiro de rifle... diante de um Pat Garret remoído pelo remorso e pela culpa de ter matado o seu melhor amigo, sentado em silêncio absoluto sobre uma cadeira de balanço na varanda de um casebre de madeira.... é a trilha que fala sobre um amanhecer lúgubre e sombrio no meio do nada... sobre uma história sem final feliz nem triste... apenas um final...

E então Billy 4 entra para nos resumir toda essa jornada fantástica que acabamos de vivenciar na intimidade de nossa imaginação... como eu afirmara antes sobre esse disco ímpar e singular, eu fechava os olhos com os fones a todo volume e me sentia parte daquela fantasia de garoto... eu era o próprio Billy, ouvindo um Dylan preocupado me alertando de que Pat Garret estava no meu encalço e já tinha minha pista; pedindo para que eu não virasse as costas para ele; falando sobre os caçadores de recompensa e os pistoleiros neófitos tentando me encurralar; mandando que eu ficasse atento a qualquer ruído, que poderia se transformar num trovão vindo do tambor de suas armas; lembrando as mulheres que eu matei em El Paso ou comprei em Santa Fe; perguntando como eu me sentia sendo caçado pelo homem que era meu amigo...

Enfim, um Dylan atencioso, citando alguma puta velha de San Pedro e se lamentando por Billy estar tão distante de casa durante seu Grand Finale numa viela escura de Tularosa ou talvez no Vale do Rio Pecos...

terça-feira, 29 de julho de 2008

Simplesmente "A Banda"


Um grupo que se intitula apenas de "a banda" chama a atenção logo de cara. Com um nome simples e, ao mesmo tempo pretensioso - afinal se chamar de "a banda" pode soar por demais arrogante - The Band era um quinteto no qual quatro de seus integrantes eram originários do Canadá e um americano, que marcou o mundo da música nas décadas de 60 e 70. Seu primeiro disco, “Music from Big Pink”, chamou a atenção por vários motivos: num ano - 1968 - em que os jovens usavam cada vez mais roupas psicodélicas e colocavam a guitarra em primeiro plano, esses cinco homens se vestiam com roupas do início do Século XX e apostavam em arranjos tão sofisticados e delicados que pareciam uma ofensa. Mas a Band já era muito calejada. Juntos desde 1961, quando ainda eram conhecidos como The Hawks, o grupo já tinha uma longa estrada como grupo de apoio de um verdadeiro mito - Bob Dylan. Junto dele, viveram alguns dos mais belos momentos da história e gravaram discos antológicos. Dylan não participou de “Music from Big Pink” - ao menos oficialmente - mas deixou sua marca em algumas parcerias nas composições e na bela capa. De quebra, esse disco é considerado - atenção, fãs de listas!!! - uma das 10 mais belas estréias do rock. Uma coisa muito, muito fina. E se você ficou curioso ou achando que isso tudo muito pretensioso, bem... espere até ouvir The Band. Afinal, eles são A BANDA, certo?

Muito antes desses cinco cavalheiros mostrarem toda sua classe e capacidade em sua lendária carreira, é preciso voltar ao passado de Robbie Robertson, Rick Danko, Richard Manuel, Garth Hudson e Levon Helm, quando em 1958 nascia The Hawks.O The Hawks era, na verdade, uma banda de apoio para o cantor Ronnie Hawkins, um cantor de rockabilly que começava a ficar famoso, mas ainda não tinha alcançado um grande sucesso. Em 1958, Ronnie contratou um jovem talento chamado Levon Helm, nascido em 26 de maio de 1940, em Marvell, Arkansas. Apesar da pouca idade - 18 anos - Levon já tinha passado por algumas bandas locais e tocava guitarra, baixo acústico e bateria. E foi como baterista que entrou para a banda de Hawkins.

Mas Ronnie estava insatisfeito com sua carreira. Ele percebeu que se ficasse no sul dos Estados Unidos seria apenas mais um a cantar rockabilly. Foi então que o guitarrista dos Hawks, Jimmy Ray "Luke" Paulman entrou em contato com Conway Twitty, que fazia vários shows bem mais ao norte, precisamente no Canadá. Twitty tinha um homem forte lá, Coronel Harold Kudlets, que conseguia apresentações por todo país e até em algumas cidades do norte dos Estados Unidos, como Detroit e Buffalo. E Ronnie Hawkins and the Hawks perceberam que lá poderiam tornar-se algo grande. Assim, mudaram para Toronto, onde realmente eram considerados a grande sensação com seu rockabilly energético.Em 1959, Ronnie Hawkins lança seu primeiro disco que levava apenas seu nome e havia gravado em abril. Com 12 músicas, o disco marcou a estréia de Levon Helm na banda. Além dos dois, Jimmy "Left" Evans tocou baixo; Jeannie Grennie fez backing vocals; Willard "Pop" Jones tocou piano e Jimmy Ray "Luke" Paulman, tocou todas as guitarras. O produtor foi Joe Reisman.Com um disco lançado, aos poucos, o Hawks foi sofrendo mudanças em sua formação. Após Helm, outro futuro membro do The Band a entrar no grupo foi o guitarrista Robbie Robertson. Nascido no dia 5 de julho de 1943, em Toronto, Robbie era ainda menor de idade - 17 anos -, quando começou a tocar com Ronnie. E assim como Levon, Robbie já havia tido sua experiência no meio musical, integrando bandas como Robbie and the Robots, Thumper and the Trambones e Little Ceasar and the Consuls. Inicialmente assumiu o baixo e foi apadrinhado pelo então guitarrista Fred Carter Jr.

Em 1960, Ronnie Hawkins lançaria outro disco, “Mr. Dynamo”. Levon Helm começava a ganhar destaque escrevendo quatro canções - sendo uma delas sozinho: "Hay Ride", "Baby Jean" e "Southern Love" - essas três em parceria como Roonie e com Magill. Sua composição própria era "You Cheated (You Lied)", que chegou ao 12º lugar na parada dos Estados Unidos. Nesse disco Robbie Robertson já apareceria pela primeira vez como compositor. Robbie dividiu com Magill e Hawkins a autoria de "Hey Boba Lou" e "Someone Like You", embora não conste nos créditos como músico, pois ainda não havia sido nomeado um membro oficial dos Hawks. Nesse disco o baixo ainda era de Jimmy "Lefty" Evans, e Ronnie havia adicionado Fred Carter Jr. como segundo guitarrista.


No final de 1960, entraria o terceiro futuro membro da The Band, Rick Danko. Nascido em 28 de dezembro de 1943, em Simcoe, Rick tocava em grupos locais desde os 12 anos e havia ficando maluco com a energia do grupo após assistir uma apresentação. Rapidamente assumiria a guitarra-rítimica e depois o baixo. Em 1961 é a vez de Richard Manuel entrar no grupo. Nascido em 3 de abril de 1943, em Stratford, Manuel também havia tocado em uma banda local em sua cidade, os barulhentos Rockin' Revols. Richard era um vocalista de origem, mas se descrevia como um "pianista rítmico", capaz de nada muito complicado, mas bom o suficiente para arranjar um espaço nos Hawks.E, finalmente, entrou o último membro que faltava do The Band. E o mais velho de todos. Garth Hudson era um músico de grande habilidade e que entrou para o grupo com 24 anos (nasceu em 2 de agosto de 1937, em London, Canadá. Apesar de ser um grande pianista, Hudson era também hábil com instrumentos de sopros, como o sax tenor e exercia o papel de líder no grupo Paul London and the Kapers e haviam gravado alguns compactos em 45 rotações em Detroit, pelo selo Checkmate. Quando Levon Helm tratou rapidamente de pedir sua contratação pela sua versatilidade: "ninguém tocava piano e instrumentos de sopros como Garth. Quando Ronnie finalmente o trouxe para junto de nós, começamos, de fato, a soar como um grupo profissional.”

Mas a única maneira de manter Garth na banda era o contratando e pagando por isso, já que sua família não aprovava que Garth vivesse com uma banda de rock and roll. A saída foi contratá-lo como professor de música para seu grupo e membro dos Hawks. Ronnie já atravessava um período de baixa em sua carreira, apelando de todas as maneiras para conseguir algum sucesso. De 1959 a 1963 lançou alguns álbuns e compactos, sempre com Helm na bateria, até todos eles serem demitidos por Ronnie em 1964.No mesmo ano, eles começam a tocar com o nome de Levon Helm Sextets e conseguiram mais dinheiro do que haviam tido com Ronnie. Além dos cinco integrantes do Band, constavam o cantor Bruce Bruno e o saxofonista Jerry Penfound. Em seguida eram Levon and the Hawks e estavam tocando pelo Missouri, Arkansas, Oklahoma e Texas, nas fraternidades locais, festas de escolas, além de vários shows pelo Canadá.

Nesse período gravaram o compacto; "Leave Me Alone" e "uh-Uh-Uh" para o selo Ware, de Nova York, em 1964, com o nome de Canadian Squires. Em 1965 gravaram "The Stones I Throw" e "He Don't Love You (And He'll Break Your Heart)", para a Atco, em 1965 e os lançaram como Levon and the Hawks. Nesses discos, tanto Bruce como Jerry já estavam fora do grupo.As quatro canções marcavam algumas inovações: todas eram escritas por Robbie Robertson, que começava a mostrar um grande talento como compositor e o som estava se aproximando da música negra. Robbie conta que estava muito influenciado pelos Staple Singers: "quando escrevi "The Stones I Throw' eu estava tremendamente influenciado pelos Staples Singers. Eu considero Pops Staples um dos melhores cantores que já existiram. Ele parece um trem quando canta e tem uma qualidade única, de poder sussurrar, que me deixava maluco. Era uma canção fora do nosso contexto quando a gravamos e só fazia sentindo quando eu falava no grupo que havia me inspirado.”

A virada na carreira

Em 1965, no entanto, o grupo recebeu um convite que iria mudar radicalmente sua vida: através de uma secretária de Toronto chamada Mary Martin, que trabalhava para o empresário Albert Grossman, eles foram sugeridos para acompanhar Bob Dylan em sua entrada no rock elétrico, quando esse deixou suas composições mais folks e abraçou a guitarra elétrica. Mas Dylan não chamou todos os membros do Hawks para tocar com ele, de início. Primeiro, convidou Robbie Robertson para dois shows: um em Forest Hills, em Nova York e depois em Los Angeles, no Hollywood Bowl. Robbie confessa que não gostou nem um pouco do som que o baterista de Dylan tirava e sugeriu o nome de Levon. Dylan aceitou a sugestão e junto com o pianista Al Kooper e o baixista Harvey Brooks fizeram as duas primeiras apresentações de Dylan em formato elétrico depois da famosa e lendária vaia que tomou no Newport Folk Festival, quando tocou acompanhado de Al Kooper e da Paul Butterfield Blues Band.


Dylan gostou tanto de Robbie e de Levon que os convidou para integrar sua banda que faria vários shows pela América e pela Europa. Os dois argumentaram que isso seria impossível sem os demais integrantes do Hawks. A saída foi realizar alguns ensaios em setembro de 1965, em Toronto, para em seguida, saírem pelo mundo.Os Hawks acabaram se mudando para Nova York, local de residência de Bob Dylan e tiveram um começo difícil, já que Dylan, em suas apresentações, era sistematicamente vaiado por seus antigos fãs, que o acusavam de ter se vendido e abandonado o purismo folk para fazer sucesso. E as vaias eram tão intensas, que Levon Helm, após alguns shows, não suportou mais a tensão e desistiu. "Levon dizia que não queria mais aquilo, que não conseguia mais sentir prazer. Eu disse que ainda descobriríamos nosso som próprio, mas que isso levaria algum tempo, e que, enquanto isso, iríamos tocando e ganhando dinheiro", disse Robbie, que não convenceu, no entanto, seu colega a voltar ao grupo.

Após a excursão, Dylan resolveu se refugiar na cidade de Woodstock para começar a trabalhar em um documentário da viagem à Europa. Rick Danko e Richard Manuel começaram a viajar regularmente à cidade para auxiliar no documentário. E durante essas viagens, Danko achou uma casa estranha, que ficava em um lugar silencioso. A casa era conhecida como Big Pink e acabaria sendo o lar do grupo e, até de Dylan, por um bom tempo. Richard Manuel, Rick Danko e Garth Hudson mudaram-se imediatamente, enquanto Robbie mudou-se para a vizinhança. O local era como a realização de um sonho: ampla, longe da mídia e do público, com muito espaço para ensaios.Ali, Dylan e os quatro músicos remanescentes do Hawks trabalhavam febrilmente, compondo, ensaiando e gravando no porão da casa em um gravador de dois canais. Anos depois, essas gravações, de 1967, sairiam em forma de um antológico disco duplo, em 1975: The Basement Tapes.

A convivência com Dylan faria a banda melhorar em vários aspectos, principalmente nas letras. Robbie conta que no começo não dava muita importância para o aspecto poético de suas canções. "Mas eu tinhas minhas influências - rock and roll, country e blues e era tremendamente influenciado por cantores como Curtis Mayfield e tocava as músicas deles para Bob e dizia 'ouça a voz, o clima, é isso que devemos fazer'. Todo aquele período foi extremamente rico para nós. Ficávamos horas e horas falando de nossas influências."Aos poucos, o som do grupo ia mudando, deixando o rock mais cru dos tempos com Ronnie Hawkins e tornando-se mais elaborado.

"Enquanto eu toquei com Ronnie e com Dylan, eu tocava guitarra de maneira bem alta, raivosa e quando comecei com Ronnie não havia ninguém que soasse assim. Havia apenas Roy Buchanan e eu. Eu era um soldado da guitarra. Quando eu comecei a tocar guitarra era como uma vingança, tocava com raiva. Eu treinava diariamente, cada vez mais e mais e ninguém nesse mundo treinou mais do que eu treinei naqueles dias. Eu era jovem e com a atitude correta. Minha guitarra soava como uma ejaculação precoce. Aos 20 e poucos anos eu tocava com Dylan centenas de vezes os mesmos solos e queria morrer por causa disso. Por isso, quando resolvemos encontrar nosso som, eu queria algo completamente novo. Então pensei que quando começássemos o nosso disco, não iria fazer nenhum solo de guitarra no disco inteiro. Iria tocar apenas riffs. Também queria encontrar um som único para a bateria, um som especial para o piano. Eu não queria vocais gritados, queria vozes sensíveis em que você pudesse ouvir a respiração e elas entrando. E esse tipo de vocalização demora a ser encontrando. Eu ouvia nos discos da época uma voz anulando a outra e queria que cada uma entrasse devagar, que provocasse uma reação como os Staples Singers. Mas, por causa do fato de sermos todos homens, isso teria um efeito diferente. Todas essas idéias vinham à minha mente.”

E para montar todo esse quebra-cabeça, onde ninguém dentro do grupo era mais importante do que o outro, faltava um componente essencial: Levon Helm.O grupo - já rebatizado como The Band - já tinha algumas sessões em estúdios agendadas através de Albert Grossman. Então, Danko ligou para Levon chamando-o para integrar novamente a Band. "Disse a ele que havia algumas centenas de milhares de dólares nos esperando e perguntei se ele não queria compartilhar todo esse dinheiro conosco. Ele respondeu que estaria no próximo vôo", lembra Danko.Mas antes de Levon voltar à The Band, o grupo tinha marcado uma sessão a fim de gravarem duas canções, que foram produzidas por Grossman. As sessões foram um fracasso e Robbie concluiu que eles não soavam nada com aquilo que ele imaginara.Com o grupo insatifeito com a produção de Grossman, resolveram procurar um outro produtor e foram atrás de John Simon. Simon lembra que a primeira vez que viu (e ouviu) a The Band estava ocupado trabalhando com Peter Yarrow (do trio folk Peter, Paul & Mary) fazendo uma trilha sonora de um filme chamado You Are What You Eat, na casa de Howard Alk. "Começamos a ouvir um som das ruas e quando abrimos a janela vi quatro caras vestidos com aquelas roupas totalmente estranhas, com instrumentos malucos cantando parabéns, pois era aniversário de Howard." Após alguns encontros, já com Levon, resolveram trabalhar.

Assim, no dia 10 de janeiro de 1968, todos foram para Nova York para os estúdios da A&R e gravaram algumas músicas: "Tears of Rage", "Chest Fever", "We Can Talk", "This Wheel's On Fire" e "The Weight".Simon disse que o estúdio tinha uma acústica maravilhosa e que gravaram em quatro canais: dois deles para gravações dos instrumentos "ao vivo" - incluindo vocais - outro canal para os metais e o quarto para voz e percussão.Robbie estava particularmente interessado em encontrar um som para a bateria e, entre outras coisas, sugeriu colocar um pedal de wah-wah na pele da bateria para dar um som poderoso, como de um trovão. A idéia acabou gerando o que tanto Robbie desejava - um som único, particular e que seria uma das marcas da The Band.Enquanto gravavam, Grossman resolveu arranjar um melhor contrato para os rapazes e sugeriu que eles se mudassem para a Capitol Records e voassem para Los Angeles. Grossman afirmou que em Los Angeles eles teriam um estúdio melhor, de oito canais e que o clima de Los Angeles, em janeiro, era mais ameno do que de Nova York. Após aceitarem o argumento, pegaram as cinco canções gravadas em Nova York nos estúdios da A&M e voaram para a Califórnia.

As sessões correram da melhor maneira possível e a Band conseguia finalmente encontrar o som que tanto sonhavam. O grupo resolveu inovar desde o início. Foi idéia de Robbie abrir o disco com a lenta e triste "Tears of Rage", composta por Richard Manuel e Bob Dylan e cantada pelo primeiro. Nunca um grupo de rock havia colocado uma música lenta na abertura do disco. A idéia de Robbie era fazer o grupo soar de maneira tão original desde a primeira faixa. A segunda canção seria "To Kingdon Come", uma das raríssimas vezes em que o guitarrista assumiu os vocais."Eu estava influenciado ao mesmo tempo por Luís Buñuel (diretor de filmes espanhol), Akira Kurosawa (diretor japonês) e por John Ford. Eu estava sedento por cultura pois não ia à escola desde meus 16 anos e comecei a ler e ver esses tipos de filmes. Acabei me aprofundando dentro dos mitos europeus, nórdicos, etc.."Mas, entre tantas canções, uma delas se destacou e virou um marco na vida do grupo: "The Weight". Inspirada no diretor espanhol, Robbie conta um pouco sobre como a escreveu: "Buñuel escreveu muito sobre a impossibilidade da santidade, sobre pessoas tentando serem boas. A canção veio daí. Pessoas como ele podem fazer um filme falando dessas conotações religiosas, mas sem passar uma imagem religiosa. Nos filmes dele, há muitas pessoas tentando ser boas e descobrindo que é impossível ser bom.”

"'The Weight' começa com alguém dizendo 'você pode me fazer um favor e dizer alô a uma pessoa? Oh, você está indo para Nazaré, a terra da fábrica das guitarras Martin? Então me faça esse favor quando estiver lá' e o cara vai e uma coisa acaba levando a outra coisa até que ele percebe que não sabe mais o que está acontecendo e que precisa dar um oi para alguém que ele não conhece. Isso é bem Buñuel. Quando eu escrevi a canção quis criar algo como um mito da América. A Nazareth que pensei, era a cidade da Pennsylvania e não Nazareth de onde veio Jesus Cristo. Eu nem sei porque deram esse nome à cidade, mas tentei criar uma história em torno disto."Levon Helm disse que a canção possui alguns do personagens favoritos de todo o grupo: Luke é Jimmy Ray Paulman, dos Hawks; Young Anna Lee é Anna Lee Williams do Turkey Scratch e Crazy Chester é um cara que vinha de Fayetteville todos os sábados vestindo um daqueles cintos em que você coloca espingardas na cintura."Para fechar o disco, escolheram uma composição até então inédita de Bob Dylan, "I Shall Be Released", com um belo tratamento vocal de Manuel, Danko e Helm.

Quando foi lançado em 1968, “Music from Big Pink” não alcançou o sucesso esperado. Primeiro, porque o nome do grupo confundia as pessoas. Depois porque eles teimavam em usar nas fotos do álbum roupas soturnas e conservadoras demais para o padrão da época. Para contrastar, a capa do disco era um desenho feito por Bob Dylan. As fotos, que acabaram sendo uma marca registrada do grupo, foram tiradas pelo desconhecido fotógrafo Elliott Landy, que foi escolhido da maneira mais inusitada possível: "eu perguntei quem era o pior fotógrafo de toda Nova York porque queria essa pessoa para nos retratar. Ninguém soube me dar um nome, mas me disseram que havia esse tal de Elliot que trabalhava para uma revista furreca chamada RAT, disparada a pior de todas. Acabamos chamando-o e ele fez um trabalho incrível", afirmou Robbie.Para aumentar o estranhamento, na contra-capa do disco aparece a famosa casa rosa. O disco teve uma carreira modesta nas paradas de sucesso, alcançando apenas a 30ª posição nas paradas e isso porque George Harrison e Eric Clapton se derramarram em elogios ao trabalho. Clapton disse que era seu disco favorito e um dos mais importantes de todos os tempos. Ainda assim, "The Weight" foi apenas o número 63 nas paradas na América e 21 no Reino Unido.


Em agosto de 2000, o disco foi relançado em uma versão remasterizada, com nove faixas a mais incluindo outtakes da primeira gravação com Grossman, como é o caso de "Ferdinand The Imposter", que foi incluída mais pelo valor histórico do que musical.Ironicamente, "The Weight" faria mais sucesso nas vozes de Jackie DeShannon e na de Aretha Franklin (incluindo uma canja de Duane Allman na guitarra), ambas gravadas em 1969 e inferior à original. Isso, contudo, serviu para popularizar ainda mais o disco, tido como um dos grandes lançamentos da história do rock e peça obrigatória para quem quer conhecer a história da música.

Em 1969 a banda apresentava seu novo disco, chamado simplesmente “The Band”, recheado de belíssimas canções, como “Up On Cripple Creek”; “Rag Mama Rag”; “When You Awake” e “The Night They Drove Old Dixie Down”, entre outras. A seguir, em 1970, viria “Stage Fright”, terceiro rebento do quinteto. Talvez o disco mais pessoal da banda, focado em seus demônios internos e na angústia diante do sucesso obtido.


Seguiram-se os álbuns “Cahoots” (1971); “Rock of Ages” (1972), um show memorável em Nova York, o qual, ao final, sem nenhum anúncio ou publicidade, contou com a participação-surpresa do legendário Bob Dylan; “Moondog Matinee” (1973); “Northern Lights – Southern Cross” (1975) e “Islands” (1977).
Em novembro de 1976, a banda reuniu seus amigos para celebrar seu concerto de despedida, no Winterland Ballroom em San Francisco. “The Last Waltz” seria o show de "adeus" da banda, após de 16 anos fazendo turnês. The Band teve a compania de mais de uma dúzia de convidados especiais, incluindo Eric Clapton, Neil Diamond, Bob Dylan, Joni Mitchell, Van Morrison, Ringo Starr, Muddy Waters e Neil Young.
O evento foi filmado pelo cineasta Martin Scorsese e transformado em um documentário, lançado em 1978. O filme destaca performaces do show, cenas gravadas em estúdio e estrevistas com os membros da banda.

O Fim
The Band acabou se tornando uma instituição da música norte-americana e em 1986 os fãs foram devastados pela notícia do suicídio de Richard Manuel, que no dia 4 de março se enforcou em um quarto de motel em Winter Park, na Flórida, numa excursão que marcava a volta da formação original. A Band, ou o que restou dela, seguiu tocando até os anos 90, com vários músicos convidados, sem Manuel e Robertson, que recusou-se a participar do projeto de continuidade, dizendo-se fiel aos ideais do Last Waltz.

Discografia

1964-1965:
Uh-Uh-Uh / Leave Me Alone (compactos de 1964, como The Canadian Squires)
The Stones I Throw / He Don't Love You (compactos de 1965, como Levon and the Hawks)
Go Go Liza Jane / He Don't Love You (relançamentos em 1968, como Levon and the Hawks)
1968-1978:
Music From Big Pink (1968)
The Band (1969)
Stage Fright (1970)
Cahoots (1971)
Rock of Ages (live, 1972)
Moondog Matinee (1973)
Northern Lights - Southern Cross (1975)
Islands (1977)
The Last Waltz (ao vivo/estúdio, 1978)
1993-1998:
Jericho (1993)
High On The Hog (1996)
Jubilation (1998)
Álbuns com Bob Dylan:
Planet Waves (1974)
Before the Flood (1974)
The Basement Tapes (1975)


Fonte principal: Mofo http://www.beatrix.pro.br/mofo/

terça-feira, 15 de julho de 2008

Fã numero 1


Todo grande ídolo tem sua legião de fãs e com Bob Dylan não seria diferente. A maioria nutre pelo artista uma admiração silenciosa, mas alguns extrapolam esta condição e fazem do ídolo uma verdadeira obsessão. É o caso, p. ex., do maluco A. J. Weberman, sobre quem já falamos aqui neste blog, que nos anos 70 atormentou a vida do Dylan, tornando-se um verdadeiro estorvo para ele e sua família, quando se mudaram para Nova York.

Outro que pode ser considerado um ardoroso fã do Bob, por sorte não é um psicopata que vive azucrinando a vida de seu astro favorito, é Joel Gilbert, que fundou uma banda tributo ao ídolo, denominada Highway 61 Revisited, que segundo ele próprio é a única banda no planeta criada em homenagem a Bob Dylan. Gilbert é também cineasta e montou uma empresa chamada Highway 61 Entertainment Production que já produziu alguns filmes abordando a vida do mestre, disponíveis em DVD.

Joel é um sujeito baixinho e um tanto quanto franzino. Tudo bem que de bobo ele não tem nada e capricha bastante no visual para ficar com uma estampa parecida com o Bob. O cara por sua vez também extrapola a relação fã-ídolo e no caso dele, faz disso uma profissão. Nessa brincadeira de sair pelos EUA, em turnê com sua banda tributo, imitando o Dylan e se apresentando em bares e casas de shows e ainda, principalmente, produzindo e dirigindo os DVDs, o homem arrecada uns bons trocados.

Os filmes são bacanas, bem produzidos e trazem algumas histórias e recordações de pessoas que fizeram parte da trajetória do Bob, ao longo de todos estes anos. Embora sejam todos eles “não autorizados” pelo ídolo e portanto sem dispor de material original do artista, não são apenas produtos caça-níqueis, feitos apenas para engordar a conta bancária do seu autor, ainda que também sirvam a esse propósito.



“1966 World Tour – The Home Movies (Through the Câmera of Dylan´s Drummer Mickey Jones)”, de 2003 é uma viagem àquela celebrada turnê de 1966, através dos filmes caseiros do bateirista Jones. O DVD traz algumas entrevistas com Johnny Rivers e Trini Lopez, com quem Jones havia trabalhado e algumas boas imagens daquela turnê do Dylan, pela Europa e Austrália.





“Bob Dylan World Tours 1966-1974 (Through the Câmera of Barry Feinstein)”, de 2005, é outra viagem pelas lendárias turnês de Dylan e The Band, sendo que desta vez, através de fotos e depoimentos do fotógrafo Bary Feinstein, que acompanhou a trupe naquelas ocasiões. Gilbert visitou Woodstock, investigando a vida reclusa do Bob antes do retorno deste à estrada, fazendo inclusive uma parada na famosíssima Big Pink, de onde saíram as não menos famosas “basement tapes”. Gilbert ainda realiza algumas boas entrevistas com o lunático A. J. Webermann e também com o cineasta D. A. Pennebaker, o jornalista Al Aronowitz e o baterista Mickey Jones, que na turnê de 1966, substitui Levon Helm e tocou com a The Band, acompanhando Dylan. Este título tem edição nacional de boa qualidade e é facilmente encontrado em boas lojas do ramo.




O terceiro e último DVD tributo do Joel Gilbert é o melhor deles: “Rolling Thunder and The Gospel Years – Bob Dylan 1975-1981” conta com participações de Scarlet Rivera; Bruce Langhorne; Ramblin´ Jack Elliot e Rob Stoner, traz ainda ótimas entrevistas com os músicos e também com Jacques Levy e Rubin Hurricane Carter.




Pra não ficar só nos DVDs da Highway 61 Entertainment, vamos recomendar um outro, recentemente lançado no Brasil pela gravadora Coqueiro Verde, mais um a abordar os chamados “gospel years” do Bob. Trata-se de “Gotta Serve Somebody – The Gospel Songs of Bob Dylan”. Este documentário foi feito a partir de imagens captadas durante o “making off” do disco “Gotta Serve Somebody”, álbum indicado ao Grammy, que reuniu grandes astros do mundo gospel, interpretando músicas da fase cristã do Dylan. O DVD tem a participação de Aaron Neville; The Fairfield Four; Rance Allen, entre outros, além do próprio Dylan, cantando “When He Returns”, em 1980.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

The Other Side Of The Mirror


Cada época tem seus heróis. Cada necessidade tem uma solução e uma resposta. Algumas pessoas, a imprensa, as revistas, crêem as vezes que os heróis que os joves escolhem, ensinam o caminho a seguir. Eu penso que isto acontece porque existe uma necessidade. Este jovem homem surgiu de uma necessidade. Chegou aqui e se converteu no que é, porque havia coisas a dizer e a juventude queria expressá-las e queria dizê-las à sua própria maneira. Ele escutou, de alguma forma, a sua própria geração. Não necessito apresentá-lo, vocês o conhecem, ele é de vocês, Bob Dylan!

Com essas palavras, Bob Dylan foi apresentado numa das edições do Newport Folk Festival e é com elas que se inicia o belíssimo DVD “The Other Side of The Mirror - Bob Dylan Live At The Newport Folk Festival 1963-1965” do diretor Murray Lerner. O documentário traz o registro na íntegra das três apresentações do bardo naquele festival, realizadas nos anos de 1963, 1964 e 1965.

O DVD é simplesmente fantástico. Em minha opinião, o melhor registro em se tratando de Bob Dylan. Nele é possível acompanhar de perto a evolução do músico e principalmente sua transformação de cantador folk para o Dylan elétrico. Algo que se observa de maneira incontestável é o amadurecimento do artista e também como ele adquire extrema auto-confiança com o passar dos anos, conseguindo fazer com que sua simples presença envolva a todos com intenso magnetismo.

Lerner optou por uma apresentação crua dos registros que tinha em mãos. Nada de narração, entrevistas e etc. Pura e simplesmente as performances do músico nas três edições que participou e marcou para sempre a história do Festival. Dylan, que foi a maior estrela do evento, foi também seu algoz e carrasco ao derivar para a ruptura com os elementos tradicionais do folk, trocando os instrumentos acústicos com os quais normalmente se apresentava, por guitarras elétricas e muito barulho, causando enorme tumulto em 1965, ao subir ao palco ladeado por sua banda de rock, da melhor qualidade, diga-se de passagem, com destaque para o exímio guitarrista de blues, Mike Bloomfield.


O filme se divide em 3 partes, uma para cada edição do Festival. Os anos de 1963 e 1964 ajudaram a fazer de Bob Dylan o grande nome da música folk norte-americana, chamado por muitos de “a voz de sua geração”. Já a conturbada edição de 1965 flagra o exato momento da ruptura do Dylan com os tradicionalistas, o momento da transgressão. Só este registro já valeria o disco, mas além disto, o DVD oferece uma série de imagens de Dylan em algumas das mais marcantes atuações de seu início de carreira e um livreto de 20 páginas com ótimas fotos e uma breve histórico daquelas performances.

As diversas facetas do Dylan

AS FACETAS DE BOB DYLAN (PT. 1)
O DISCÍPULO DE WOODY (1959-1964)
Discografia: Bob Dylan (61), The Freewheelin´ Bob Dylan (62), The Times They Are A-Changin´ (64), Another Side of Bob Dylan (64)

A América era risonha e franca, quase pura, quando o menino Robert Allen Zimmerman inventou o trovador Bob Dylan. Havia subúrbios estalando de novos em torno das cidades, uma TV em cada casa e dois carros em cada garagem, um supermercado - essa incrível e recente invenção do conforto urbano! - em cada esquina e muitos bambolês em todos os armários. Em breve haveria um homem no espaço e um jovem presidente na Casa Branca, falando em justiça social e igualdade racial e namorando Marilyn Monroe escondido - John Kennedy, é claro -, e uma vaga euforia pairava no ar. É certo que existiam coisas como a ameaça nuclear, esta estranha novidade que parecia, a princípio, uma bênção, e agora ninguém estava tão certo assim; e o muro de Berlim e a Guerra Fria, e a CIA tramando sem parar a derrubada de Fidel Castro. Mas dentro das fronteiras da América, uma prosperidade inédita, confortável e segura embalava sonhos de transformação, acordava espíritos aventureiros.


Robert Allen, filho dos donos de uma próspera loja de móveis e ferragens em Hibbing, Minnesota, achou que era um deles. O seu futuro provável - herdar a loja dos pais, como mandava a boa tradição familiar judia - parecia tedioso. Mais interessante era o futuro provável de um moderno trovador urbano, alguém que continuasse na nova década e na nova cidade a linhagem dos vagabundos poetas dos anos 30. Leadbelly, Woody Guthrie, Blind Lemon Jefferson, esses que ele ouvia em discos surrupiados às lojas dos negros, esses que ele ouvia em obscuros programas da madrugada, e em visitas secretas aos guetos.Em 1959, Robert Allen saiu de casa com as bênçãos dos pais para estudar na Universidade de Minnesota. Chegou lá com o nome de Bob Dylan e um outro passado - era um vagabundo, descendente de índios Sioux, sua família vinha do Oklahoma. Instantaneamente, ele havia redesenhado seu futuro.


Não ficou na universidade por muito tempo: um ano depois, já estava em Nova York, tocando violão e gaita nos bares do Village, compondo canções descaradamente parecidas com os talking blues de Woody Guthrie, mas um tanto mais loucas, repletas de visões apocalípticas, uma agilidade política mais feroz, mais adequada aos novos tempos. O Village Voice e o New York Times acharam aquilo muito chique, muito apropriado. John Hammond, um produtor e folclorista repleto de poder na gravadora Columbia, arranjou rapidamente um contrato.


Em 1961, aos vinte anos de idade, dois anos após ter-se inventado, Bob Dylan era o novo artista mais promissor e badalado dos Estados Unidos. É preciso lembrar que não havia Beatles nem Stones nem "rock" como conhecemos hoje. Havia um imenso vácuo de desejos não realizados, uma geração em busca de sua própria voz nessa era de prosperidade e esperança. Com seus talking blues revisitados, suas baladas de amor e fúria - "Blowin´ in the Wind", "Masters of War", "Don´t Think Twice, It´s Alright" , "The Times They Are A-Changin´" -, seu canto fanhoso, seu olhar de poeta e seus cabelos de maluco, mentiroso mas sagaz - ou seja, misterioso -Bob Dylan acabara de descobrir essa voz.

AS FACETAS DE BOB DYLAN (PT. 2)
O TROVADOR ELÉTRICO
Discografia: Highway 61 Revisited (65); Bringing It All Back Home (65); Blonde ou Blonde (66); The Basement Tapes (gravado em 66/67, mas lançado apenas em 75)


Onde Dylan teria percebido a mudança? No vento, como o personagem de sua própria canção? Os tempos estavam acelerados, pesados. Não apenas formalmente, com a chegada triunfal do imprevisível - uma onda de bandas inglesas que estavam relendo, com grande sucesso, a mesma ancestral tradição popular americana sobre a qual ele mesmo se debruçava - mas em cada um desses monumentais percalços históricos que parecem se acumular, caprichosamente, sobre cada dia dos anos 60: o assassinato de Kennedy, o assassinato de Martin Luther King, a Guerra do Vietnã, a Guerra dos Seis Dias no Oriente Médio, a pílula, o ácido lisérgico, a minissaia, a pop art, Andy Warhol. O que um pobre garoto poderia fazer?


Em julho de 1965, a platéia do festival de Newport obteve a resposta. Dylan subiu ao palco com uma guitarra elétrica ao pescoço e, acompanhado por uma banda canadense - The Hawks, mais tarde rebatizada The Band, simplesmente -, atacou não as baladas folk que haviam feito sua glória, mas pesadas diatribes impulsionadas a eletricidade e fúria. A voz fanhosa rasgada num grunhido, num rosnar - "How does it feeeel? To be on your oooown..." ele rugia numa canção inédita, "Like a Rolling Stone". Os tempos, e Dylan, haviam definitivamente mudado.



Num veloz curto-circuito típico da era, a fusão folk rock que Dylan pegara no ar, inspirado por Beatles e Stones, voltava a Beatles e Stones e inspirava, por sua vez, Rubber Soul e Between the Buttons. O documentário Don´t Look Back, de D.A. Pennebaker, captura o flagrante deste novo personagem, o Dylan popstar: arrogante, egoísta, defensivo, trincado, partindo o coração da namorada Joan Baez (que ele trocaria pela futura mulher Sarah Lowndes em 66), agredindo e humilhando a imprensa. O álbum duplo Blonde on Blonde captura o outro lado - a musa elétrica de Dylan em sua melhor fase, cuspindo metáforas e visões sobre o ricochetear funky da Band e convidados.



Em julho de 66, dias depois de seu 25.º aniversário, um acidente de moto interrompe a até então irresistível decolagem de Dylan desde o dia em que saiu de casa, em 59. Aparentemente esbofeteado pelo destino, Dylan pára, some, recolhe-se a sua casa de Woodstock. Durante dois anos, boatos de todo tipo atravessam o novo clube do qual ele era sócio-fundador e presidente de honra: a novíssima elite rock. Dylan estaria desfigurado, ou drogado, ou louco, ou morto. Nada disso: trancado em Woodstock com a Band, Dylan estava se divertindo numa grande, longa festa íntima, como revelariam, anos depois, os Basement Tapes.


AS FACETAS DE BOB DYLAN (PT. 3)
O CAIPIRA ESCLARECIDO
Discografia: John Wesley Harding (68); Nashville Skyline (69); Self Portrait (70); New Morning (70); Pat Garrett and Billy the Kid (73); Planet Waves (74)

O Dylan que emerge do retiro em Woodstock é, mais uma vez, uma síntese de sua geração - na virada dos trinta anos, casado e pai de família, violentamente confrontado com sua própria mortalidade, ele desacelera, medita, reavalia suas opções. Quando o sereno, semicountry John Wesley Harding é lançado, em 68, parece que Dylan encontrou, enfim, maturidade e serenidade, e está dando um passo adiante num ano ruidoso e explosivo, ano de revolução cultural na China, tumulto estudantil em Paris. Na verdade, Dylan estava apenas ganhando tempo, confessando sua perplexidade diante da quantidade de certezas destruídas que os últimos meses haviam acumulado em sua vida - exatamente como seu público faria durante a nova década, diante de coisas tão desconcertantes quanto a escalada da Guerra do Vietnã, Watergate, drogas pesadas e discoteca.


Sua primeira reação é voltar atrás, recuperar o fôlego - uma fórmula que, crise após crise, se mostra certeira no pop. John Wesley Harding e Nashville Skyline são discos marcados pela country music, pelo abraçar sem reservas da simplicidade, da rusticidade até. A voz está mais grave, mais doce, a lira está serena: o caipira esclarecido canta a vida e o amor sem pedir desculpas, e flerta com a possibilidade - que depois explorará quase até o delírio - da experiência religiosa como provedora de peso e significado.


Os outros discos são irregulares - embora a trilha de Pat Garrett oculte um clássico, "Knockin´ on Heaven´s Door" -, Dylan não se apresenta mais ao vivo, brinca de fazer cinema (em Pat Garrett). Sua vida parece ecoar suas canções: "Êi, baby, este será o fim?", ele tinha perguntado, uma vez. Não: novamente, era apenas o início.

AS FACETAS DE BOB DYLAN (PT. 4)
O TROVADOR ELÉTRICO REVISITADO
Discografia: Before the Flood (74); Blood on the Tracks (74); Desire (75); Hard Rain (76); Street Legal (78)

Com uma fúria inigualada desde os tempos do festival de Newport, Dylan e a Band partiram para a estrada em 73. O resultado está captado admirávelmente em Before the Flood, um dos melhores álbuns ao vivo de todos os tempos. Como um grande balanço de sua vida e de sua obra, Dylan revê seu próprio repertório com vigor e espírito crítico, reinterpretando espetacularmente seus próprios cavalos-de-batalha e, assim, construindo a transição entre a sua geração - que se embalava confortavelmente nas diluições mornas do rock pomposo dos 70 - e a geração seguinte - que sonhava a imensa ruptura punk, ainda por vir.


Como que impulsionado pela energia nervosa dessa tour, Dylan atravessa os últimos anos 70 a bordo de uma espécie de nuvem magnética. Sem a Band, acompanhado por músicos diversos, quase semi-amadores, ele compõe longas e sinistras canções de amor, abandono e desejo, cada vez mais crípticas e cabalísticas, ocasionalmente comentando algum assunto político que, por acaso, atravesse seu campo de visão. É uma produção estranhamente brilhante, essa do Dylan que vê chegar a meia-idade sem ter encontrado ainda resposta alguma - irregular mas intrigante, angulosa. Os cripto-fãs que analisam cada milímetro de suas letras - uma degeneração da dizimada cultura sixties, como os dead heads e os neo-hippies - não chegam a perceber para onde Dylan está rumando. Emocionalmente à deriva, ele, que sempre pregou a ruptura, anseia agora pela ordem no caos. Qualquer ordem serve.


AS FACETAS DE BOB DYLAN (PT. 5)
O CRENTE
Discografia: At Budokan (78); Slow Train Coming (79); Saved (80); Shot of Lore (81)

A ordem que Dylan encontra é a mais banal possível: em 1980, para espanto de fãs e não-fãs e delícia da imprensa, ele anuncia que acaba de se converter ao protestantismo fundamentalista, uma das formas mais simplistas de fé religiosa cristã que pode existir. Com um único gesto, Dylan não apenas renega todo o seu passado imediato como livre pensador secular mas também toda a sua história familiar como judeu.


A esterilidade pessoal que se esconde atrás dessa escolha aparentemente estapafúrdia revela-se nos discos deste período - os piores que Dylan conseguiu fazer em toda a sua carreira. Não existe mais o poeta alucinado, o trovador arrogante, o crítico inclemente, apenas um homem sozinho e infeliz, implorando a misericórdia de Deus por pecados reais ou presumidos - o pior deles, sem dúvida, o de ter renegado o próprio talento.

AS FACETAS DE BOB DYLAN (PT. 6)
O QUE VOLTOU DOS MORTOS

Discografia: Infidels (83); Empire Burlesque (85); Knocked out loaded (87); Oh Mercy (89)

Na capa de Infidels, Bob Dylan, ritual Yarmulk na cabeça, ajoelha-se no solo de Israel. Na primeira faixa do disco, o quase-reggae "Jokerman", sua voz madura, apaziguada, discorre lucidamente sobre as incontáveis armadilhas de um mundo tornado mais complexo, e mais cruel, pela mesma tecnologia que deveria simplificá-lo e salvá-lo. Na virada dos quarenta anos, na entrada de uma década que se revelaria uma estranha mistura de gozo e paradoxo - Aids e Reagan e MTV e computadores e satélites e mídia global dançando alucinadamente -, Dylan parece ter achado o olho do furacão. Robert Allen Zimmerman reconciliou-se afinal com sua criatura: ele, agora, pode ser o menino judeu de Hibbing, o bardo de Greenwich Village e o popstar recluso de Malibu numa única pessoa.


Os discos se deixam espaçar, calmamente. Dylan compõe como quem volta a andar depois de uma longa enfermidade debilitante, com cuidado. Uma turnê com Tom Petty, discípulo tornado comparsa, constrói vínculos com mais uma geração. Uma aliança com o produtor Daniel Lanois, que vem de outra formação e outra experiência, abre portas insuspeitadas em sonoridade e idéias: Oh Mercy é um triunfo. Quantas mortes e quantas vidas Bob Dylan ainda vai inventar?

(textos de Ana Maria Bahiana, e publicados originalmente na Revista Bizz de janeiro de 1990, gentilmente cedidos pela autora)

Bob Dylan clandestino


A incrível história do "álbum perdido" de Dylan, as lendas em torno dele e como The Great White Wonder inventou o mercado de discos piratas

Reportagem por Alexandre Matias (originalmente publicada na Revista Bizz e no site Trabalho Sujo)

"Consideramos o lançamento deste disco um abuso da integridade de um grande artista. Ao publicar material sem o conhecimento ou a aprovação de Bob Dylan ou da Columbia Records, os vendedores deste disco estão privando grosseiramente um grande artista da oportunidade de aperfeiçoar sua performance até onde ele crê em sua integridade e validade. Eles difamam o artista e fraudam seus admiradores ao mesmo tempo. Por estas razões, a Columbia, em conjunto com os advogados de Bob Dylan, seguirá todos os procedimentos legais para interromper a distribuição e a venda deste álbum."

Tarde demais. A nota divulgada pela gravadora de Dylan em setembro de 1969 sobre a existência de um disco chamado The Great White Wonder veio registrar, nos autos da própria indústria fonográfica, a existência de um registro sonoro inédito que começava a ganhar dimensões improváveis para o que deveria ser uma mera produção caseira. Vendido na casa dos milhares, o vinil duplo trazia dois momentos distintos de Dylan (doze canções gravadas em um hotel em 1961 e outras nove faixas de baixa qualidade acompanhado da mesma banda com quem excursionava, em 1967) e surgia imponente como aquilo que o editor da Rolling Stone, Jann Wenner, chamara de "o disco perdido de Bob Dylan", na capa da edição de 22 de junho de 1968. Na matéria, eram descritas treze canções que circulavam por meios alternativos, que comporiam um próximo álbum do contratado da Columbia Records. "O conceito de um disco coeso já está presente", escreveu, antes de clamar: "A fita do porão de Dylan precisa ser lançada."

"Havia uma enorme demanda por Dylan e ele não lançava nada", me explica Greil Marcus, uma das principais autoridades sobre o músico norte-americano. "Naquela época, um artista de seu porte não lançar nada por seis meses era algo improvável - que dizer do período de um ano e meio entre Blonde on Blonde (1966) e John Wesley Harding (1968). Neste sentido, os piratas preencheram a lacuna. Como aconteceu, haviam tantos lançamentos - sobras de estúdio, shows, músicas que nunca foram lançadas etc. - que constituem toda uma carreira à sombra - que Robert Polio recentemente construiu no livro Tin House".

Em menos de um ano, The Great White Wonder veio à tona; as primeiras cópias eram vendidas em Los Angeles e logo se replicaram pelo mundo. Mais do que compartilhar com o grande público gravações que já eram conhecidas dentro da metiê fonográfico, o LP é o primeiro passo em uma história que todo fã de música pop adora: o disco pirata. Uma história em que o próprio Bob Dylan é um de seus principais protagonistas.

Like a Rolling Stone

Volte no tempo cinco anos e encontre Bob Dylan no auge de sua carreira. Mais do que se enamorar pelo rock’n’roll, o antigo garoto-prodígio da cena folk e a então voz de sua geração viu na combinação barulhenta de country e rhythm’n’blues em instrumentos elétricos uma capacidade de comunicação mais instantânea e mais ampla do que o beco sem saída das ladainhas ao violão que andava metido. O rock se tornava a nova música popular, o novo som das ruas. Ele reconhecia a reverência que a geração da Invasão Britânica fazia aos grandes nomes do rádio norte-americano dos anos 50 – não à toa, batizou um disco de Bringing it All Back Home ("Trazendo Tudo de Volta pra Casa").

"Os Beatles estavam fazendo o que mais ninguém fazia", disse Dylan em 1971 a um de seus biógrafos, Anthony Scaduto. "Os acordes eram ultrajantes e suas harmonias vocais validavam tudo. Você só pode fazer isso com outros músicos. Foi quando comecei a pensar em trabalhar com outras pessoas. Todo mundo pensava que os Beatles eram pra adolescentes, que logo iam passar. Pra mim, eles tinham chegado pra ficar. Sabia que eles apontavam o rumo que a música devia seguir."

Desde o primeiro momento em que optou pelo rock, não havia meio-termo – tanto que sua "conversão" elétrica foi em alto e bom som no Newport Folk Festival. Dylan subiu no palco no dia 24 de junho de 1964 ao lado do tecladista Al Kooper e da Blues Band de Paul Butterfield, os mesmos músicos com quem, havia pouco mais de uma semana, gravara o hino "Like a Rolling Stone". O single chegou às paradas no mesmo dia em que Dylan encerraria o evento. Ele foi chamado ao palco com entusiasmo pelo cantor Pete Seeger, um dos organizadores, o mesmo que dali a pouco tentaria cortar o cabo de eletricidade com um machado quando a banda de Dylan começou a tocar "Maggie’s Farm".

Era guerra. Chamou os canadenses dos Hawks para ser sua banda e juntos cruzaram 1965 e 1966 na famosa turnê. Na primeira metade do show, Dylan tocava sozinho seu violão; na segunda parte, vinha com a banda e presenteava o público com uma descarga musical bruta e agressiva. A resposta vinha em forma de vaias.

O choque foi intenso para a banda, formada pelo guitarrista Robbie Robertson, o pianista Richard Manuel, o baixista Rick Danko, o organista Garth Hudson e o baterista Levon Helm – tanto que este pediu as contas em novembro de 65, pois não suportava mais ser vaiado. Acostumada a tocar em pequenos pardieiros, a banda era atirada às mais reputadas salas de espetáculo do mundo, do Hollywood Bowl ao Royal Albert Hall, secundando um dos principais artistas jovens da época, e ainda por cima para ser agredida pela platéia. Que, por sua vez, pagava para vaiar.

Se a banda estava chocada, o mesmo não parecia acontecer com Dylan. Desafiava o público, os fãs, os jornalistas e quem mais se colocasse entre ele sua nova música com um humor nonsense e aparente desprezo por todos. Seus discos haviam encontrado, no público de rock que aos poucos amadurecia, uma audiência maior que o conservadorismo folk. Mas aquilo parecia ter ampliado ainda mais seu papel de "voz de uma geração". A agressividade musical parecia atrair outro tipo de agressividade. Violência gera violência. As vaias eram substituídas por xingamentos e pesadas trocas de acusação entre o cantor e a platéia, numa onda cada vez mais crescente em que a própria vida de Dylan parecia correr risco. "Olha o que eles fizeram com o Kennedy em Dallas!", assustou-se o cantor folk Phil Ochs ao assistir ao confronto no estádio de Forest Hills, em Nova York.

Essa história é registrada magistralmente em dois dos mais importantes documentários da história do rock, Don’t Look Back do diretor D.A. Pennebaker, que acompanha o braço inglês da turnê de 1965 e foi crucial para difundir o novo Dylan para todo um planeta ainda não unificado pela TV via satélite, quando foi lançado em 1967; e No Direction Home, de Martin Scorsese, lançado em 2005.

Woodstock

Precisando descansar, Dylan comprou uma casa de campo em Woodstock, assim como seu empresário Albert Grossman, pouco antes de reiniciar a turnê americana, em 1966. Impressionados com a tranqüilidade pastoral da região, próxima de Nova York, os quatro canadenses dos Hawks (só Levon era norte-americano) mudaram-se para uma enorme casa rosa em West Saugerties, próximo à casa de Bob. Montaram seus instrumentos no apertado mas confortável porão de uma horrorosa casa rosa (a "Big Pink"), onde começaram a ensaiar com freqüência, muitas vezes acompanhados por Dylan.

Até que, no dia 30 de julho de 1966, as rádios dos Estados Unidos passaram a noticiar que Bob havia sofrido um acidente de motocicleta. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu e a gravidade do estado de Dylan após os freios de sua Tryumph 500 terem parado de funcionar perto de sua casa, quando foi acompanhar a mulher, Sara Lownds, que saía de carro, em uma volta pela região, no dia 29 de julho. Na época, falavam que ele estava entre a vida e a morte, que o acidente estava apenas encobrindo o fato de ter enlouquecido, que a CIA havia sabotado sua moto. Depois do acidente, Dylan se isolou: não recebia visitas, falava com os amigos por meio de um interfone e não saía mais de seu quarto.

Quando começou a fazê-lo, encontrou sua banda em outro plano. Sem bateria, tocavam mais devagar e mais baixo, sem perder a pegada rock. A atmosfera do porão dava uma estranha vida ao local e som ecoava por mais tempo, como uma velha transmissão de radio. O lugar combinava com o som que lembrava em sua reclusão, som de infância, entre o blues e a música folk, de artistas anônimos e trovadores atordoados. À medida em que se recuperava, voltou a tocar com a banda, que não tinha mais nome. Eram apenas "The Band".

Puseram o gravador para funcionar e em abril de 1967 começaram os históricos registros. Poucos instrumentos, tocados informalmente, entre tentativas e risadas, eram o centro dessa viagem ao passado em que nem Dylan nem a Band, podiam saber, conjurou espíritos de diferentes eras do som gravado nos EUA. Os cinco se tornavam um conjunto vocal, a princípio parodiando cantores antigos com vozes cômicas que, pouco a pouco, ganhavam um novo significado. Compunham músicas com se estivessem apenas tentando lembrar delas, numa jam session espiritual de retorno à infância de suas musicalidades. Ao comparar o som do porão ao de um laboratório, o Greil Marcus ouviu algo bem diferente de Robbie Robertson: "Não", disse o guitarrista no livro Invisible Republic. "Aquilo era uma conspiração. Era como as fitas de Watergate. Pra muitas coisas, Bob dizia ‘devíamos destruir isso!’."

Quatorze dessas faixas foram transformadas em discos de acetato por Albert Grossman. Dylan não tinha a intenção de lançar aquelas gravações, mas aproveitou para oferece-las a outros intérpretes. "Quinn the Eskimo" foi para Manfred Mann; "You Ain’t Goin’ Nowhere" para os Byrds; "This Wheel’s on Fire" caiu com Julie Driscoll, Brian Auger & the Trinity; "Too Much of Nothing" ficou com Peter, Paul & Mary. Cada artista que registrava algo daquele misterioso material dava dimensões ainda maiores às versões originais, como se elas encobrissem algum segredo.

O segredo, na verdade, eram as próprias fitas – já então apelidadas com seu nome clássico de "basement tapes" ("fitas do porão"). Dylan, aos poucos, voltava à carreira via country (o disco John Wesley Harding, gravado em Nashville, e na aparição no show em tributo a Woody Guthrie no Carniege Hall, em janeiro de 1968). Ao mesmo tempo, cópias daquele acetato circulavam entre artistas, jornalistas, fãs e empresários, revelando a música que Bob Dylan vinha fazendo quando virou as costas para o Verão do Amor. Reuniu-se com os amigos e voltou para o passado, num clima de convivência mais honesto e intenso que o sexo desesperado do amor livre, a piração ablué das drogas psicodélicas ou o ruído estridente do rock'n'roll. Eram apenas amigos fazendo música. Folk, direitos civis, psicodelia – estava cansado de pegar carona na onda dos outros.

Com as "fitas do porão", era a vez dos outros seguirem sua onda. E foi assim que os Rolling Stones saíram do abismo paz e amor onde nunca deveriam ter ido, exilados uma chácara no interior de São Paulo, no Brasil, para compor seu disco mais "raiz", Beggar’s Banquet, ouvindo as basement tapes sem parar. Nos Beatles, foi George Harrison quem deu a dica de Dylan e fez Paul McCartney bolar o conceito do disco Get Back, em que o grupo voltaria a descobrir o prazer de estar junto tocando músicas velhas – um projeto que deu errado, acelerou o fim da banda, e culminou nos disco e filme de mesmo nome, Let it Be. A música country era reavaliada e tinha sua importância ressarcida. Woodstock tornou-se o palco para o megafestival e sinônimo de todo aquele sentimento. Uma saída melancólica mas digna para a autodestrutiva psicodelia, já em rota de colisão, as basement tapes foram uma espécie de amuleto para a passagem dos anos 60 para os 70.

The Basement Tapes

Daí que em 1969 veio The Great White Wonder, dali a pouco Troubled Troubador, Waters of Oblivion e vários outros discos piratas, que ampliavam ainda mais o número de músicas do porão – das 14 originais foram para 23 em 1975, o ano em que a Columbia oficializar o disco, com todas as faixas (24! Uma única faixa desconhecida dos fãs, "Goin’ to Acapulco", indicava que ainda havia mais a se descobrir) num mesmo volume. Mas a gravadora não gostou do som das fitas e fez a Band regravar algumas partes, descaracterizando-as. Oficializado, The Basement Tapes chegou aos dez discos mais vendidos na semana de seu lançamento: "Eu pensava que todo mundo já tivesse essas músicas!", disse Dylan, surpreso.

Contudo, duas novas coletâneas piratas Blind Boy Grundy & the Hawks volumes 1 e 2 (o título vem dos nomes que Dylan e a Band usavam antes de serem conhecidos), só com faixas inéditas foram lançadas logo após o disco da Columbia, ampliando ainda as basement tapes. No livro Bootleg: The Secret History of Rock and Roll, o escritor Clinton Heylin localiza a origem deste segundo lote quando um amigo de Robbie Robertson deu uma série de fitas a uma loja no noroeste americano. Um terceiro lote de fitas seria encontrado e todas as gravações conhecidas das basement tapes seriam compiladas numa caixa de cinco CDs de 1990 – que melhoraram edição após edição até chegar ao box A Tree With Roots, de 2001.

A quantidade de artigos da pirataria Dylan o torna o artista mais lançado extra-oficialmente do mundo – até mais que os Beatles, pois eles terminaram em 1970. Só a existência de Jewels and Binoculars, uma única caixa com 26 CDs dedicadas a seus shows em um ano (1966, da gravadora Vigotone) já deveria servir como prova disso. Ele também contribui, produzindo mais do que pode lançar, trocando versões matadoras por faixas fracas em cima da hora, refazendo discos sem pestanejar. Tanto que começou a desovar este material em coletâneas oficias, como na Biography, em que comenta sobre a pirataria no encarte: "Eles tem coisas que se faz em uma cabine telefônica. Quando não tem ninguém por perto. Você num motel, sozinho, não conhece ninguém e... É como se o telefone estivesse grampeado... Aí aparece num disco pirata. Com uma foto de você que foi tirada debaixo da sua cama e com um título meio strip-tease, custando 30 contos. E depois você pergunta porque tantos artistas são paranóicos."

Dylan entrou pra valer no jogo quando lançou sua série pirata, em 1991. A princípio, uma caixa com três CDs cheios de relíquias para maníacos e faixas incríveis para o público em geral, as Bootleg Series já estão em seu sétimo volume (a trilha sonora de No Direction Home) e nem sinal das basement tapes oficializadas mesmo – na íntegra, sem retoques, sem remasterização moderna. Como o documentário de Scorsese termina no misterioso acidente de moto, já especula-se sobre um segundo filme, que nos levaria às profundezas do mítico porão.
"Dylan, mais do que muitas figuras públicas viveu numa nuvem de desinformação e mito, boa parte deliberadamente criada ou encorajada por ele para aumentar sua própria imagem", me disse Howard Sounes, outro biógrafo do músico. Marcus conclui: "Eu não tenho a menor idéia do que Dylan acha disso tudo. Contudo, não fui o único a notar que seu disco de 1970, Self Portrait (Auto-retrato), era um apanhado de faixas ao vivo, sobras, versões de segunda categoria e peças inacabadas, muito parecido com o disco que o precedeu, The Great White Wonder.